24 de abr de 2017

MOSTRA IMAGÉTICA NO CCBB Poesia Visual Contemporânea Mesa-redonda 15 MARÇO 2017


O olhar de Wlademir Dias-Pino
Ronaldo Werneck



        ave
        ave ave
        ave ave ave
ave voo
        voo
        voo ave
        voo ave ave
        voo ave ave ave
 ave vae

         vae




A importância de 1956 para a história da literatura brasileira pode ser registrada mediante três episódios capitais: o lançamento da poesia concreta, a publicação de Grande sertão: Veredas e o surgimento de A ave, de Wlademir Dias-Pino, livro que se liga(va) às virtualidades gráficas e verbo-visuais do concretismo, mas que apontava para um desdobrar novo nas aventuras composicionais da própria poesia concreta.
Moacy Cirne in Revista Vozes, 1972



Ex-FACHA/Ex-CCBB
Entre os anos 1990 e 1995, fui Assessor de Imprensa e Editor de Textos do CCBB – e para mim não deixa de ser emocionante participar, depois de mais de 20 anos, de um evento neste belo prédio que eu tanto conheço. Principalmente por também se tratar de um projeto promovido pela FACHA, faculdade onde estudei jornalismo na década de 1970.  
Quando aqui trabalhei, havia um poeta barbudo e de longos cabelos à la hippie, um quase demiurgo, que resolveu montar ”seu escritório” ali nas escadas do Foyer, ao lado do Teatro I. De repente, para espanto da direção do CCBB, ele passou a ter vários seguidores, quase diria epígonos.
Um dia sentei-me ao seu lado na escada e ele me disse chamar-se “Ex-Kosta K”.  Não simplesmente Kosta K, mas “Ex-Kosta K”. Uma negação que se transforma e afirma. E firma e se reafirma formidável. Para surpresa minha, ele falava de Maiakóvski, Concretismo, Poema Processo. Ficamos amigos e quase-quase também virei um de seus epígonos. Nunca mais o vi, nunca mais o esqueci. Também, pudera, o “Ex-Kosta K” era primeiro e único. Agora e então, aqui e agora, sou eu quem percebo ter também me transformado em Ex. Ex-FACHA, Ex-CCBB, Ex-Roneck.
Para esta mesa-redonda – com a presença do poeta Sady Bianchin, professor de artes da Facha-Faculdades Integradas Hélio Alonso, e criador de “Um Rio de Versos”, agora em sua nona edição; do poeta Tchello d´Barros, curador da mostra Imagética; e de Regina Pouchain, poeta e artista visual – fui designado a dizer algumas palavras sobre um dos pioneiros do poema visual e meu amigo de longa data, o poeta Wlademir Dias-Pino, que se encontra aqui ao meu lado,

Wlademir Infinito  
Aos 90 anos, Wlademir é finalmente reconhecido como o enorme poeta e artista plástico que é, o que vem acontecendo desde sua grande exposição “O Poema Infinito”, que no ano passado ocupou todo um andar do MAR, o Museu de Arte do Rio, e pelo Prêmio Faz Diferença 2016, recebido do jornal O Globo na categoria artes plásticas.
A exposição no MAR tomou como eixo central quatro poemas: “O dia da cidade”, “Ave”, “Solida” e “Numéricos”. Visando ampliar a experiência sensorial dos trabalhos, esses livros-poemas foram transformados em grandes instalações magnéticas, nas quais os elementos eram construídos e rearranjados pelos visitantes.


    Outro destaque foi a Enciclopédia Visual Brasileira, na qual o artista vem trabalhando nas últimas duas décadas. Composto por 1001 volumes, o trabalho pretende apresentar, por meio de pranchas resultantes da montagem alegórica de referências culturais diversas, a história da construção da imagem no mundo.
       Falar em mundo, Wlademir é um mundo habitado pelo pensador visual que traz dentro de si. Um artista multifário: vitrinista, tipógrafo, designer gráfico, poeta-professor, poeta-inventor, na classificação de Ezra Pound. Para Antonio Houaiss, “um dos mais perspicazes pesquisadores visuais no Brasil". Para o crítico Assis Brasil, “Wlademir Dias-Pino é o poeta mais independente na área da poesia experimental”.
      Então, dada a grandeza da tarefa, e se me permitis, permitir-me-ei ler (como já venho fazendo, e com as velhas mesóclises ora em voga) algumas palavras minhas, de outros, e até do próprio poeta e de seu pensar sobre os caminhos do poema.
Mas antes vamos a uma pequena digressão, que tem a ver com o Poema Processo, movimento que ele fundou ao lado dos poetas  Moacy Cirne, Álvaro e Neide Sá, seus maiores expoentes.

Libertarde
Meu poema “Libertarde”, que está exposto aqui, na mostra Imagética, foi realizado neste prédio há cerca de 50 anos. Eu trabalhava na Supla, a Superintendência de Planejamento do BB, no terceiro andar. Eram tempos da repressão, embora menos severa do que a que viria no ano seguinte, com o AI-5. Num intervalo do trabalho, comecei a pensar na bandeira de Minas, naquele “Libertas quae sera tamen” envolvendo o triângulo vermelho.


Troquei o dito em Latim (que o poeta-menino Vinicius de Moraes lia como “Libertas que será também”, e nada entendia) por um círculo envolvendo um pequeno triângulo. Aos poucos, o triângulo crescia e já tangenciava o círculo e logo dava o que na minha desvairada cabeça seria um dialético salto qualitativo – até que cercasse o círculo, ultrapassasse totalmente a “prisão” por ele representada. O título “Libertarde” surgiu da junção do “Liberdade” com o “ainda que tardia”.
Wlademir Dias-Pino com a palavra: “Programas que visem a tornar o computador cada vez mais capaz de produzir pinturas, desenhos, sinfonias e textos (aleatórios ou figurativos), reduzem as próprias possibilidades que a eletrônica oferece na pesquisa de vanguarda. É a tentativa de igualar (substituir de modo snob) o computador ao pincel, ao lápis, ao piano e ao dicionário. O uso contínuo de um instrumento torna-o extensão do homem: ´o lápis é a ponta grafitada de seu dedo´. Daí a individualidade do desenho”.
Interessante registrar que “Libertarde” foi inicialmente produzido em minha mesa de trabalho, com o auxílio de uma moeda (de onde saiu o círculo), um lápis (olha o lápis do Wlademir aí!) e o livro de instruções circulares do BB, que me ajudou a traçar o triângulo. Mais que uma época pré-digital, aquele foi um momento sem régua ou compasso. Aliás, se a Bahia deu a Gil régua e compasso, o Banco do Brasil pouco me ofereceu para a realização do poema, fora o livro-esquadro. Bem, na verdade esta não é certamente função de bancos.
Era realmente um tempo pioneiro, artesanal. O poema foi publicado pela primeira vez em livro, em 1972 na obra “Processo: Linguagem e Comunicação”, do próprio Wlademir. No ano seguinte, sairia no Jornal da Poesia, no Caderno B, editado por Affonso Romano de SantAnna, com direito a chamada de capa no então poderoso Jornal do Brasil. Logo, seguiria mundo, publicado em jornais, livros e revista, daqui e do exterior. Já neste século, a poeta e designer Regina Pouchain – que nos honra com sua presença nesta mesa – faria ótimas releituras cromáticas de “Libertarde” e de outros de meus poemas visuais, que podem ser vistas na seção “Trabalhos/Poemas Visuais” de meu site www.ronaldowerneck.com.br. Wlademir não diria “releituras”, mas “versões”. Isso porque, para ele, a versão é criativa: “Eu pego o poema inaugural de um cidadão e faço uma versão. O que eu fiz foi acrescer a minha experiência à conquista daquele poeta”.

Um olhar pra algo além


Pois é, já lá se vão 50 anos. A primeira vez em que vi Wlademir Dias-Pino, foi aí por volta de 1967, não sei bem se em Cataguases, na Mata Mineira, em casa do poeta Joaquim Branco (onde ele concederia em 1977 longa entrevista sobre os rumos da poesia visual para o Totem, jornal que então editávamos em conjunto). Ou, quem sabe, no Rio, em Santa Teresa, numa reunião na casa dos poetas Neide e Álvaro de Sá, já no início dos anos 1970. Ali, onde sempre ao lado de outros companheiros, como o poeta-professor Moacy Cirne, tentávamos estruturar os rumos do Poema Processo. Não sei bem se lá ou cá, mas o importante é que nunca me esqueci do olhar de Wlademir.
Ele nunca nos olhava diretamente, mas sempre enviesado, como se buscasse o infinito. “Quem olha é responsável pelo que vê”, ele nos dizia na entrevista para o Totem, Um olhar pra além, pra algo além. Futuro ou coisa que fosse. Esse olhar assim desencontrado de Wlademir Dias -Pino é tudo o que eu captaria mais tarde como definição do que fosse, seja ou é o que entendemos, ou não, sobre poesia visual. Que eu prefiro chamar de “poema visual”, já que poema é uma coisa, poesia outra. Poema é veículo, poesia reta de chegada.

A vida no meio gráfico
Um rápido flashback sobre a trajetória e o próprio nascimento de Wlademir Dias Pino já nos deixa dúvidas logo de início. É certo que o poeta nasceu em 1927 no Rio (Rua Pareto, na Tijuca). Mas em que mês? Fala-se em fevereiro, mas há registros de abril, outros de maio. Ainda bem que ele está aqui e pode nos dizer a data certa: afinal, já foi comemorado ou ainda vamos comemorar os seus 90 anos?
No Rio dos anos 1930, Luciano Pino, o pai de Wlademir, é militante comunista, jornalista e trabalha como tipógrafo na Imprensa Nacional. Figura marcante em sua formação, sua mãe, Laura, é quem ensina o filho a ler e a escrever. O método didático da mãe é recortar com tesoura palavras dos jornais editados pelo próprio marido. Esse sistema de recorte de palavras e formas é mantido durante toda a vida do poeta, sendo a tesoura o instrumento de realização de várias de suas obras.

Na primeira infância, Wlademir brinca com os tipos gráficos de chumbo: “Vivi no meio gráfico, comecei a lidar com o tipo desde muito cedo e ficou aquele amor pela forma das letras. Convivendo com o alfabeto desde a tenra infância, um dia conclui que a maior arbitrariedade existente na cultura humana é a imposição do código alfabético”.
Em 1937, por razões políticas, Luciano, é forçado a transferir-se com a família para Mato Grosso. Wlademir chega a Cuiabá com 10 anos e lá permanecerá até os 24. Nesse período, costumava ler vorazmente os clássicos na biblioteca pública da cidade. Seu pai foi responsável pela renovação gráfica da imprensa de Mato Grosso e, como jornalista e comentarista, também produzia crítica de cinema e ensaios sobre a vida social. Nessa época, Luciano conhece o poeta Manoel de Barros que vai até sua casa para entregar um exemplar de seu primeiro livro. A visita do jovem poeta mato-grossense marca o pequeno Wlademir que, anos mais tarde, seria um dos responsáveis pelo início da divulgação de sua obra.

“Os Corcundas”: Augusto e Philadelpho
Em 1938, com apenas 11 anos, já escrevia livros de poemas. Sem seu consentimento e em segredo, um dia seu pai, que administrava uma gráfica, publica um livro seu, que retira de um conjunto de manuscritos. Extremamente tímido, quando vê a edição Wlademir revolta-se e coloca fogo nos livros. Alguns exemplares são salvos.
Coincidência ou não, em 1967, para grande espanto dos transeuntes e de tutti quanti, os poetas do movimento do Poema Processo, Wlademir, Álvaro, Neide e Moacyr Cirne à frente, queimam livros de poetas consagrados na Cinelândia. “Espantar pela radicalidade” era seu slogan, a palavra de ordem.
Em 1939, “Os corcundas”, seu primeiro livro conhecido, é impresso por seu pai, agora com sua concordância, como atesta o cólofon na contracapa do único exemplar existente desta edição. Wlademir ainda não completara 12 anos de idade. O universo grotesco dos personagens do poema foi inspirado, segundo ele, na commedia dell'arte, que sua avó apresentava aos netos, além de “forçá-los” a ouvir ópera e ler peças de teatro. 


“Os corcundas e suas deformações linguísticas./ O avesso do muro por toda a parte, o inverso./ Nuvens beliscando o perfil das coisas/ Trapézio com seus dentes catando // arreiam seus olhos e como doadores de sangue/ se nivelam e dormem/ aos pés dos cogumelos/ (ficando suas sombras)/ em ângulos retos borrados/ sobre seus travesseiros de lilases/ macios como o tato/ (cabelos invisíveis)// e a nuvem que desce forma uma jaula/ de manequins tombados”.
“Os corcundas” foi reimpresso em 1954, passando essa data a aparecer equivocadamente como a data em que foi escrito. Nas décadas de 1950 e 1960, a obra é objeto de análises críticas em jornais e publicações nacionais. Em nenhuma delas é apontado o fato absolutamente extraordinário, então desconhecido, de Wlademir tê-la escrito enquanto ainda era criança, e o trabalho é tratado por toda a crítica como obra adulta e plena, precursora formal de sua surpreendente originalidade e capacidade inventiva.
Em 1956, escrevia o poeta Augusto de Campos no Suplemento do Estadão: “A rebeldia de Wlademir se manifesta ainda, ao nível semântico, pela dessacralização do “poético”, através de um sistemático “culto do feio” ou do “mau gosto” em ‘Os Corcundas’, onde ocorre a intromissão de um vocabulário rejeitado em poesia e que pela constante reiteração chega a ser, mais do que prosaico, propositadamente incômodo e perturbador. Nesse monturo de dejetos verbais Wlademir trata de revolver e perseguir uma espécie de fenomenologia do indizível poético, para chegar ao fim das calvas coisas. Ao mesmo tempo sente-se nele a consciência existencial da solidão e da alienação do poeta no mundo moderno".
E também o crítico e poeta Philadelpho Menezes, em seu livro Roteiro de literatura: poesia concreta e visual: "Entre o muito que foi soterrado na história da poesia concreta, há que se dar um destaque especial para o poeta Wlademir Dias-Pino. Em livros como ‘Os corcundas’, do final da década de 1940, (sic) Dias-Pino mostra uma poesia incomum para os padrões brasileiros. Com imagens estranhas, associações imprevisíveis, um vocabulário rebuscado colocado numa sintaxe toda desconjuntada, sua poesia em verso é surpreendente e pede uma reedição cuidadosa. Em ‘Os corcundas’, o tema é a deformação física. Mas a deformação não fica só no tema. Ela invade a própria linguagem, entorta a sintaxe das frases, põe vocábulos antipoéticos nos versos, deforma as palavras".

“A fome dos lados” & “Intensivismo”


 Em “A fome dos lados”, de 1940, Wlademir, com apenas 13 anos, descreve o impacto de ver o corpo de um amigo do pai torturado e assassinado pela polícia de Filinto Müller na ditadura Vargas:” Aqui está a mancha do assassinado/ livre agora era bom e é livre/ sua mancha horizontal e leve/ como são leves as coisas horizontais// Eis o morto livre/ raso e vazio/ em seu ninho de sangue calvo/ (calvo como a bala de fuzil)/ sangue que é escudo/ assim tombado//Esse mesmo sangue cheirando/ ao sopro exausto de seu hálito calvo/ como sombra duma parede lisa/ onde foi fuzilado outro rebelde”.
Em 1948, em Cuiabá, ao lado de outros poetas, como Silva Freire, ele funda o movimento literário de vanguarda “Intensivismo”, trazendo em seu ideário fortes inovações formais que antecipam as tendências mais radicais da poesia visual e das artes plásticas dos anos 50 e 60. Wlademir volta para o Rio de Janeiro em 1952. Nessa década, edita e programa visualmente a Revista da União da Nacional dos Estudantes e participa dos movimentos de vanguarda política e cultural da época. Mas, mesmo distante, está sempre com um pé em Cuiabá, como ainda hoje.
De lá pra cá, é história já bem sabida, ou não: em 1958, o “vitrinista” Wlademir transforma com sua arte o Carnaval do Rio numa grande vitrine. Em 1962, escreve Antônio Olinto em sua coluna Porta de Livraria, no Globo:
“Há quatro anos, fez o poeta Wlademir Dias-Pino, para a então Prefeitura do Distrito Federal, uma série de desenhos concretos para a decoração de rua do Carnaval do Rio. Pela primeira vez em nossa história, entrou esse tipo de desenho em contato com o grande público. Os panos pintados por Wlademir acabaram sendo a inspiração dos carnavais seguintes, e a verdade é esta: não pode mais o carnaval do Rio voltar a ser figurativo, porque o povo se acostumou com os triângulos, os círculos, o tipo geral de desenho, enfim, de Wlademir Dias-Pino”.

Concretismo & SDJB


Um dos seis poetas-pioneiros do movimento da poesia concreta no Brasil (junto a Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos, Ferreira Gullar e Ronaldo Azeredo), ele participa em 1956 da I Exposição Nacional de Arte Concreta em São Paulo, que chega ao Rio no ano seguinte.  Publica poemas e textos no SDJB-Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, o grande veículo que acolheu o concretismo em suas páginas. Em 1967, Wlademir é um dos fundadores do Poema Processo, ao lado de Moacy Cirne, Álvaro e Neide Sá, entre outros.
Em 17.02.1957, uma versão gráfico-visual do poema “A Ave” ocupa toda a terceira página do SDJB. Em 23.02.1958 publica no mesmo SDJB artigo intitulado “Da negação e positivação do espaço”, ilustrado por um fragmento em letras garrafais do poema “A Ave”.
Destaco alguns, vamos dizer, “aforismos” de seu texto:
“A arquitetura antes de ser parede é o buraco onde o homem mora. É a arte de organizar vazios”.
“O músculo da máquina é a exatidão, daí o ar abstrato das artes modernas. É como num poema concreto: é tal a sua movimentação interior (em si) que ele passa a ser um poema sem contorno”.
“Um poema escrito é antes de tudo visual e não sonoro – ele não é um instrumento musical. Não se há de confundir lira nem bandolim com um poema. A poesia é silenciosa”.
“A visão completa do poema faz com que ele perca a lógica linear, o tal contorno que é o máximo de continuidade de uma linha”.
“Poesia concreta é o aparecimento máximo dos recursos naturais da palavra, porém não é a palavra flexível e sim os seus movimentos de ligação. Por isso, a poesia concreta não ser confundida com trocadilho”.

ave vae


 Na entrevista que concedeu em 1977 ao Totem, realizada por Joaquim Branco, dizia Wlademir:
“Dentro da poesia concreta a poesia está ligada ao sentido de conteúdo. É importante: não pode existir o poético sem o conteúdo. O conteúdo é o mais importante no sentido de poesia, natural do poético. Agora, quando é o poema independe do conteúdo, quer dizer, o grafismo ou a forma de registro é mais importante do que o conteúdo”.
“O poema pode ser poético ou não, como um quadro pode ser bonito ou não. O poema independe do poético: a inscrição é mais importante que o conteúdo. Então ele está muito mais próximo do sentido de linguagem do que a poesia”.
“O que é importante dentro do poema passa a ser então o processo do poema. Na poesia, o que se lê é a estrutura, como foi estruturada a poesia”. 
“O que importa no poema é o processo que ele encerra. Você vê o processo. Daí a possibilidade da versão. Na poesia se faz tradução do poético. No poema, não. Não se permite uma tradução do poema, mas uma versão”.
Num de seus poemas nascidos ainda Cuiabá, Wlademir registra: “muro gradeado de fuzilaria/ encostado ao limite/ – represa social.// O muro é a tela para todo o poema”. Pound tinha razão: os poetas são as antenas da raça. Esse velho muro de Wlademir, num olhar de hoje, antecipador de uma cena pseudo-paulista, é mais que up-to-date: é o grafite que esplende na integridade de sua arte. 
Perdão Wlad, mesmo sabendo ser o poema visual e não sonoro, não resiste a falar trechos de “A Ave”, como na na abertura dessas minhas palavras. Menos ainda a dizer o poema que cometo a seguir, versão e fecho apressado de meu texto e de seu próprio poema.
                                               


                               
ave
                        vae
                                ave
                                ave voa
                                                 voar
                                é preciso
                        vae
                                é preciso
                                            ir
                                            vae vae
                                mirar
                                ir
                                ave wlad
                        vae
                                ave ave
                                       ave wlademir



Ronaldo Werneck
Cataguases, março 2017

13 de mar de 2017

R.FUSCO por R.WERNECK Sob o signo do imprevisto

      Meu livro “Rosário Fusco por Ronaldo Werneck/Sob o signo do imprevisto” será lançado em Cataguases, no Centro Cultural Humberto Mauro, no próximo dia 18 de março, a partir de 19 horas, na noite de abertura da exposição “Verde 90 Anos (1927/2017), organizada por Joaquim Branco, P.J.Ribeiro e por mim. Vejam a seguir os textos de orelha e de apresentação do livro, escritos por Luiz Ruffato e Joaquim Branco.




Sob o signo do imprevisto

Luiz Ruffato


      O romancista, ensaísta e poeta Rosário Fusco (1910-1977) enquadra-se naquele limbo em que encontramos os escritores injustiçados da literatura brasileira. Nascido em São Geraldo (MG), mas levado aos seis meses de idade para Cataguases (MG), em vida Fusco chegou a ter sua importância reconhecida – o crítico Antonio Candido, em artigo intitulado “Surrealismo no Brasil”, publicado em 1945 no volume Brigada Ligeira, recomenda a leitura de O Agressor, chamando a atenção para a “habilidade com que é arquitetado e conduzido”. 
     O Agressor, lançado em 1943, tornou-se o mais afamado livro de Fusco – suas raras edições são hoje disputadas pelos leitores mais exigentes. Também aclamado é outro romance do autor, Carta à Noiva, de 1954, listado pelo ficcionista Ivan Angelo como um dos dez mais importantes da nossa história literária. Em boa hora, portanto, o poeta e cronista Ronaldo Werneck nos oferece este excelente Sob o signo do imprevisto.
   Werneck, que teve o privilégio de desfrutar a amizade de Fusco, não tenta compor uma biografia, que seria um retrato de corpo inteiro, mas sim nos brinda com recortes de momentos específicos, que, vistos em conjunto, formam um mosaico capaz de nos revelar a grandeza deste personagem intenso, polêmico e essencial. São lembranças, memórias, evocações e confissões com que Werneck, com sua enorme capacidade de fazer convergir objetividade e subjetividade no mesmo espaço textual, edifica um monumento em tributo a Rosário Fusco.
      O livro inclui ainda a longa e celebérrima entrevista de Fusco ao mitológico jornal Pasquim, em março de 1976, e um conto-homenagem – eu chamo de conto – de Ronaldo Werneck, “Ringo não discute: mata”, que exibe o talento do poeta para a ficção. Em suma: Sob o signo do imprevisto é um título para constar da biblioteca de todos aqueles que cultuam Rosário Fusco e admiram Ronaldo Werneck.
São Paulo, 05.02.2017




"Um Rosário vale três terços"
Joaquim Branco


          Ronaldo Werneck me pede para prefaciar o seu novo livro sobre Rosário Fusco.
       Difícil tarefa, porém tentadora. Impossível deixar de atender. Trata-se de dois grandes amigos (um, já falecido) e em relação aos amigos geralmente não se tem uma dimensão por assim dizer justa de avaliação.
         Por outro lado, nesse caso a empreitada torna-se até fácil. Vejam por quê.
       Não contando, anteriormente, meu conheci­mento de sua obra, convivi com Rosário Fusco por cerca de 10 anos em Cataguases, na sua casa da Granjaria, bairro onde hoje moro.
      Com Ronaldo, desde a infância, tive longa convivência, quando jogamos botão, bafo-bafo, bola, sinuca e, mais tarde, frequentamos escolas, criamos suplementos, antologias, festivais – quase tudo que se pode (e não se pode) esperar de jovens amigos.
         Com Fusco, aprendi o que a universidade não pode dar: o savoir faire literário, o que é um verda­deiro romancista, a coragem, o medo e o desafio da escritura: "com quantos paus de faz uma canoa esté­tica e existencial" (como ele dizia). De vez em quando, sempre pela manhã, bem cedo, me chamava a sua casa. "Abunde-se" – dizia ele. Eu me sentava e ouvia/via sua atuação teatral, abusiva, descentrada e centrada, quando à minha frente desfilava um mundo de literatura, filosofia, arte, ciência e tudo que saía de seu talento fulgurante. Outras vezes, pa­recia nostálgico, misterioso, com seu robe preto, a me receber de cabeça baixa, dostoievisquiano, monossi­lábico. Queria me confessar algo...
       Dividi muitas experiências com Ronaldo, vi­vemos os trepidantes anos 60 da contracultura e das vanguardas, os sonhos dos 20 anos, namoros e festas e farras etc.
          Daí mais do que justo que eu prefacie este seu livro feito de vivências do homem e escritor Rosário Fusco, pois é impossível separar os dois.
     O leitor que se prepare. Aqui conhecerá a (a)ventura imperdível de um romancista que excede o romance e extrapola todas os limites da criação li- terária – e por que não dizer? – humana? Além de farta documentação de uma história de vida, ilustra­ções com fotos, pedaços de poemas, de bilhetes, suas boutades, opiniões sobre outros artistas, onde tudo excede e quase nada se explica.
         O livro registra muito do que Ronaldo presen­ciou, leu e aprendeu – de detalhes pessoais a confis­sões "inconfessáveis", de reuniões noite adentro a tiradas criativas sobre a natureza dos homens e a es­pecificidade das mulheres.
          Portanto, este trabalho de Ronaldo Werneck, que pode ser o pórtico para uma futura biografia do autor (fica a sugestão), vai direto à curiosidade do leitor, que certamente gostará de conhecer algo mais sobre esse "vulcão das gerais" e que, em tom de brin­cadeira, disse certa vez para nós: "Um Rosário vale três terços".

Cataguases, 02/02/2017



Revista VERDE
Expô 90 ANOS



 “Sou de Cataguases, cidadezinha pacata de Minas Gerais, e venho trazer a notícia de que fundamos uma revista moderna aqui. Verde é o nome da baita" – escrevia em 1927 o rapazote Rosário Fusco (17 anos recém-completados) ao escritor Mário de Andrade, um dos expoentes do nosso modernismo literário. Pois é exatamente uma baita exposição a que vai comemorar no próximo dia 18 de março, no Centro Cultural Humberto Mauro, em Cataguases, os 90 anos do lançamento da revista Verde – o principal baluarte do modernismo no interior de Minas e que, com colaborações recebidas de escritores de vários pontos do país, ajudou a disseminar o movimento Brasil afora.
Organizada pelos poetas Joaquim Branco, Ronaldo Werneck e P.J. Ribeiro, fundadores do Totem, grupo de vanguarda surgido em Cataguases nos anos 1960 – que conviveram e se tornaram amigos de vários dos integrantes da Verde –, a mostra VERDE 90 ANOS é composta por imagens & textos sobre a revista lançada em Cataguases no ano de 1927. Na noite de abertura, a partir de 19 horas, haverá um sarau com poemas dos integrantes da revista pela equipe do Proler e o lançamento de dois livros: “Uma Verde História”, de Fernando Abritta & Joaquim Branco; e “Rosário Fusco por Ronaldo Werneck: Sob o signo do imprevisto”.

Revista Verde
Por que enredos da Providência Divina foi nascer, à beira de um riacho chamado Meia-Pataca, um grupo de poetas interessantes que hão de deixar uma certa marca no momento poético que estamos vivendo?” – perguntava-se o respeitado crítico Tristão de Athayde n´O Jornal, do Rio de Janeiro, em 1928, ao escrever sobre a revista Verde, lançada no ano anterior em Cataguases.
Verde tirou seis edições: as cinco primeiras em 1927; uma em 1928; e a última em 1929, toda dedicada a Ascânio Lopes, o principal poeta do grupo, que acabara de falecer, aos 22 anos. O primeiro número publicava apenas escritores mineiros – Carlos Drummond de Andrade, Emílio Moura etc – e entre eles os rapazes da cidade, núcleo de resistência da Verde e fundadores da revista: Ascânio Lopes, Cristóphoro Fonte-Boa, Camilo Soares, Enrique de Resende (o mais velho, então com 28 anos), Francisco Inácio Peixoto, Guilhermino Cesar, Martins Mendes, Oswaldo Abritta e Rosário Fusco, o mais novo deles, com 17 anos.
Já a partir do segundo número, vieram colaborações de escritores dos quatro cantos do país e até do exterior. Principalmente dos modernistas de São Paulo, capitaneados por Mário e Oswald de Andrade, que chegaram mesmo a escrever poema famoso dedicado aos rapazes da Verde, publicado no quarto número da revista, onde diziam: “Todos nós somos rapazes/ muito capazes/ de ir ver/ de forde verde/ os ases de Cataguases”.
No terceiro número da Verde é publicado um “abusado” manifesto, que ficaria famoso e que pode ser resumido nos seguintes itens:

1.º Trabalhamos independentemente de qualquer outro grupo literário.
2.º Temos perfeitamente focalizada a linha divisória que nos separa dos demais modernistas brasileiros e estrangeiros.
3.º Nossos processos literários são perfeitamente definidos.
4.º Somos objetivistas, embora diversíssimos uns dos outros.
5.º Não temos ligação de espécie nenhuma com o estilo e o modo literário de outras rodas.
6.º Queremos deixar bem frisada a nossa independência no sentido “escolástico”.
7.º Não damos a mínima importância à crítica dos que não nos compreendem.

Lançamentos, sarau, bate-papo
Além do lançamento dos livros de Joaquim Branco e Ronaldo Werneck e do sarau com poemas dos integrantes da revista, a exposição VERDE 90 ANOS vai mostrar fotos individuais e em grupos dos membros do movimento, de várias situações em casa, com a família, as capas das revistas e livros, os textos mais representativos, os logotipos criados por Rosário Fusco, desenhos e caricaturas, e as biografias resumidas de cada um dos “Verdes”. Haverá também um bate-papo com os organizadores, aberto a perguntas do público.
Em 1928, no nº 5 da Verde, ao escrever sobre o reconhecimento em âmbito nacional da revista, dizia entusiasmado o poeta paulista Ribeiro Couto: “Todo o Brasil está surpreso: existe Cataguases! (...) Todo mundo foi ao mapa, roçou o dedo pela superfície, procurando, apertando os olhos, até achar: Cataguases”.
Então, que o público de agora aperte bem os olhos e roce os dedos no googlemap até achar: Cataguases. E que venha ver a mostra VERDE 90 ANOS.
Agradecemos a divulgação.

Joaquim Branco
joaquimb@gmail.com
(32) 98888-2344 e (32)3421-8280

Ronaldo Werneck
roneck@ronaldowerneck.com.br

(32) 98819-0955 e (32) 3422-2671

10 de jan de 2017

GULLAR ANTE(S) (D)O ESPANTO - 5

Pomba Poema sujo  




    “A experiência da poesia é hors-concours./ Aterro no Poema Sujo. Meto o dedo no cujo:/espirra luz.// (...) Navegar na poesia: reduzir, redundar.../ Em Ferreira Gullar as nuvens nuvem./ Murilo Mendes manda o luar luar”, escrevia em 1982 Carminha Ferreira, a injustamente esquecida poeta mineira Maria do Carmo Ferreira, até hoje inédita em livro. O poema de Ferreira Gullar marcou época – e Gullar, o poeta, foi objeto de várias controvérsias, como se percebe no texto a seguir, publicado por meu amigo, o também poeta e jornalista Carlos Ávila, em sua coluna na Revista Eletrônica Dom Total.
    “Segue-se o Poema sujo, de grande repercussão. Tenso e intenso – uma espécie de suma poético-autobiográfica –, mas longo e desigual (como a neobarroca Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima), esse poema é considerado o ponto alto da produção de Gullar: “vozes perdidas na lama”. Poema Sujo ganha muito quando lido pelo próprio poeta (há registros em CD e DVD) – possui uma dimensão oral, a presença do ritmo da fala na escrita. A morte de Gullar é a morte da poesia-espanto, do poema sujo de vida (e – por que não? – também de morte). Contraditório – estética e politicamente –, com seus altos e baixos (o que levou este colunista a nomeá-lo, oswaldianamente, ´IrreGullar´, num comentário anterior), o poeta maranhense criou uma poesia única, suja de lama e de alma – entre as mais significativas da segunda metade do séc. 20 no Brasil”.
    Gullar começou a escrever o Poema sujo em maio de 1975. Ele achava que seria o derradeiro poema de sua vida, já que vivia exilado e sem passaporte (negado pela Embaixada brasileira) numa Buenos Aires às vésperas do golpe militar e sem ter pra onde ir, rodeado por uma série de ditaduras em grande parte da América Latina. Não sabia como iria desenvolver o poema, que começa a sair (“vomitado”, segundo ele) de modo estranho e sem sentido, para espanto do próprio poeta: turvo turvo/ a turva/ mão do sopro/ contra o muro/ escuro/ menos menos/ menos que  escuro/ menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo/ escuro/ mais que escuro:/ claro...”. Mas Gullar deixou a abertura assim, incompreensível até mesmo para ele. O poema só teria seu real começo à frente: um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas.
    E se encadearia na sequência “modernista”, como fala de dicção cotidiana – e flutuaria na cabeça do poeta e em sua escrita incessante, como febre, obsessão, por quase sete meses: eu não sabia tu/ não sabias/ fazer girar a vida/ com seu montão de estrelas e oceano/ / bela bela/ mais que bela/ mas como era o nome dela? perdeu-se na profusão de coisas acontecidas// (...) Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos e pais dentro de um enigma?/ / quanta coisa se perde/ nesta vida// Como se perdeu o que eles falavam ali/ mastigando/ misturando feijão com farinha e nacos de carne assada e diziam coisas tão reais como a toalha bordada/ ou a tosse da tia no quarto/ e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa janela/ tão reais que/ se apagaram para sempre/ Ou não?

De tarde, prata. De noite, mata
    Na antevéspera deste Ano Novo, conversava sobre as muitas mangas de dezembro com Dona Alva, avó de minha mulher, Patrícia. E logo me lembrei de minha Tia Carmem-Cacai e de suas superstições: “Manga com leite, manga com banana: é tudo muito perigoso. De noite, então, é morte certa”. Quando falei em banana, Dona Alva logo articulou os versos folclóricos da “maldição” da banana: “De manhã, ouro./ De tarde, prata./ De noite, mata”. O que me remeteu de imediato ao Poema sujo e à sua profusão de bananas podres: Uma banana/ não apodrece do mesmo modo/ que muitas bananas/ dentro de/ uma tina// no quarto de um sobrado/ na Rua das Hortas, a mãe/ passando roupa a ferro/ fazendo vinagre//(...) // e as bananas/ fermentando/ trabalhando para o dono – como disse Marx –/ ao longo das horas mas num ritmo/ diferente (muito mais/ grosso) que o do relógio/ fazendo vinagre// um rio/ não faz vinagre/ mesmo que um quitandeiro o ponha para apodrecer/ numa tina// um rio não apodrece como as bananas//...//E como nenhum rio apodrece/ do mesmo jeito que outro rio/ assim o rio Anil/ apodrece a seu modo/ naquela parte da ilha de São Luís.



    Hoje, dia 4 de janeiro de 2017, percebo que fiquei um mês exato entregue ao “barato” de escrever sobre Gullar, 30 dias inteiros a contar de sua morte – tomado por meu texto quase como ele por seu poema. Um mês em que passei também como se em transe a falar sobre o poeta com quem, apesar de tudo, tenho afinidades e um curioso rol de coincidências. Como, por exemplo, o fato de ter trabalhado na redação do Diário de Notícias junto com o também poeta Lago Burnett, grande amigo de Gullar desde os tempos de juventude em São Luís. Lago e eu também nos tornamos bons amigos – longos papos sobre poesia e quejandos, não por acaso regados a queijos e cachaças da melhor qualidade numa queijaria ao lado do jornal, na Rua do Riachuelo – e senti muito quando soube de sua morte em São Luís, em 1995. Troquei email com Gullar na época, que se confessou arrasado: “éramos muito amigos, começamos a escrever juntos”.
      Já falei em crônicas anteriores de poemas de Gullar e meus, de tônica assemelhada: Guevara, Vietnam etc. O livro “Toda Poesia”, de 1980, comentado ao longo dessas crônicas, tem capa de meu amigo (e hoje vizinho aqui no prédio em Cataguases), o designer Dounê Spínola, que fizera antes a capa da primeira edição do Poema Sujo, de 1976 (da Civilização Brasileira, meu exemplar tem o nº 712) e, coincidência das coincidências, também de outros livros meus (Cataminas pomba & outros rios, de 2012), inclusive o Pomba Poema, de 1977.  Aliás, foi do Dounê a sugestão para fazermos a diagramação do Pomba Poema no formato horizontal – como fizera a Léa Caulliraux com o livro do Gullar –, o que o tornou ainda mais parecido, pelo menos graficamente, com o Poema sujo. Nessa primeira edição do poema, que tenho em minhas mãos, escreve Otto Maria Carpeaux: “Poema sujo mereceria ser chamado Poema nacional, porque encarna todas as experiências, vitórias, derrotas e esperanças da vida do homem brasileiro. É o Brasil mesmo, em versos ´sujos´ e, portanto, sinceros. Só nos resta sentir com Ferreira Gullar – fraternalmente”.

Polvilho, pedreira, palavras
    Ainda não sabia do Poema sujo, que seria lançado meses depois, quando em janeiro de 1976 me mudei para Itaipu, em Niterói. Certo domingo, numa praia das proximidades, Itacoatiara, comendo o indefectível biscoito de polvilho, meu distraído olhar desviou-se das ondas e fixou-se numa pedreira defronte, com inscrições que não conseguia identificar. Ita-ipu, Ita-coatiara, tudo pedra: polvilho, pedreira, palavras. Tudo remetia a Cataguases: o biscoito de polvilho da infância, as inscrições na velha pedreira: e já janeiro/ bate/ intensamente lá/ nas escarpas/de ita/ coatiara/ ali/ na areia/ frente ao mar/ o biscoito/ de polvilho estala/ na memória/ e sabe/ a padaria cabral/ ao pão quente/ do vitória/ nesse domingo/ azul de itaipu/ surgem são soam/ estranhas/ as palavras/ polvilhadas/ e s p a l h a d a s/ espelhadas/ na pedracoatiara/ remetem a/ itacat'agua'ses/ pomba/ pedra/ palavras grafadas/ a esmo no mesmo/ traço traçadas/ a seco no pó/ emaranhadas/ arranhadas/ na pedra/ no tempo/ esparso.
    Então, ao contrário do poema de Gullar, com seu início “vomitado”, mas que ficou como saiu, o meu surgiu “pelo meio” – um fragmento que só apareceria mais à frente no corpo do poema, deflagrado por aquele proustiano biscoito de polvilho, pura madeleine.  O poema foi tomando corpo aos poucos, mas eu ainda sem saber no que aquilo iria dar: surgia a cidade, a história, a minha história na cidade, a cidade dentro de mim. Até que, já com o poema em andamento, o livro do Gullar foi lançado e vi como parecia com o poema que eu estava fazendo (“o homem está na cidade como a cidade está no homem”). Muitas semelhanças, embora a motivação de meu poema, o que o conduziria a partir de certo ponto (ele acabaria focando o centenário de Cataguases, que se daria no ano seguinte, 1977) não fosse bem a mesma: no Pomba Poema a história da cidade era vista/atravessada pelo rio Pomba, supostamente claro e clean na memória, não pelo rio Anil do Poema sujo, “solidário com a miséria, com a vida suja”, como diria depois Gullar, “apodrecido” em meio à gente humilde e “encardida” de São Luís): Ah, minha cidade suja/ de muita dor em voz baixa/ de vergonha que a família abafa/ em suas gavetas mais fundas/ de vestidos desbotados/ de camisas mal cerzidas/ de tanta gente humilhada.



   Como Gullar, também fiquei um longo tempo (talvez até mais que ele: quase ano e meio) “atravessado”, tomado por meu poema. E desde seu real início, logo depois do episódio da praia de Itacoatiara, só aproveitado mais à frente, foi um só pensar exclusivamente no poema, a exemplo do acontecido com Gullar: nesgas neblina manhã/ ainda agora/ o cheiro da maçã/ evocando a metrópole/ o mundo exterior extraído/ a cada odor & dentada// o mundo além da reta da saudade/ antes das indústrias o mundo/ atolado/ na ponte do sabiá/ há? não há?/ não sabíamos/ não sabemos/não soubemos/ nunca jamais/ estava ali o mundo/ antes do tempo e da ponte/ num repente/ na girândola/ do tempo/ manga/ jabuticaba/ abiu/ explodindo no dente/ mas o mar mar/ telando as pedras/ no meio da luz/ e dia memória.
    “Mas a poesia não existia ainda”, escreveria Gullar em determinado ponto de seu poema. Confesso que me assustei, pois essa ideia estava também em meu poema, quase da mesma forma, embora em outro contexto:
    Poema Sujo – Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade/ sob/ as sombras da guerra// Stalingrado resiste.// A cada nova manhã/ nas janelas nas esquinas na manchete dos jornais// Mas a poesia não existia ainda// (...) Muitos/ muitos dias há num dia só/...//coberto pela sombra quase pânica/ das árvores/ de galhos que subiam mudos/ como enigmas/ tudo parado/ feito uma noite verde ou vegetal/ e de água/ muito embora em cima das árvores/ por cima/ lá no alto/ revelando seu costado luminoso nas folhas/ passasse o dia (o século XX).// (...)  muitos são os dias num só dia/ fácil de entender/ mas difícil de penetrar.
   Pomba Poema – ainda não existia a poesia/ ou antes/ estava/ toda ali/ roubando pães na rua/ do sobe‐e‐desce/ anunciando a manhã/ como o leite/ escorrendo/ circunspecta/ pelo relógio/ imenso/ entrevisto pelas frestas/ da casa e do tempo/ onde laura do carmo/ ensaiava acordes para o jazz‐band/ o violino mesclado/ aos cascos da manhã/a poesia/ nas árvores/ pendurada/ nos galhos/ não no papel/ impressa/ opressa/mas saltando livre/ sem pressa/ escorrendo das folhas/ como gerânios/ se debruçando/ explodindo/ em arco/ sobre o rio/ sangrando suada/ veloz singrando/ num só arremesso/ singrando/ como bola de pano/ estava ali/a poesia/ antes/ da poesia.
    Também o sexo se assemelhava na noite, nas ruas, a céu aberto. Meio descritivo, no Poema sujo (de prosa), como no primeiro modernismo; paradoxalmente entrecortado por enjambements com menções aos poetas concretos em Pomba Poema.
      Poema sujo – A noite adormece as galinhas/ e põe a funcionar os cinemas/ aciona/ os programas de rádio, provoca/ discussões à mesa do jantar, excessos/ entre jovens que se beijam e se esfregam/ junto à cancela/ no escuro// Como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada fraca,/ o perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno.// E todos buscavam/ num sorriso num gesto/ nas conversas da esquina/ no coito em pé na calçada escura do Quartel/ no adultério/ no roubo/ a decifração do enigma/ – Que faço entre coisas?/ – De que me defendo?
    Pomba Poema – era engraçado/ o sexo/ engraxado por brancos jatos/ lubrificado/ por amplos amplexos/ curtos‐tardos/ despojados/ longos‐lentos/ soltos a cada momento/ despejados/ no negro sexo de jânio quadros/ negra jânio viva negra vulva/ noite exímia/ preta preta/ pretíssimas/ retas augustas/ em M fortuitas suas coxas/ fartas sujas concretas pignatrizes/ as cujas crespas carnudas cornucópias/ duro penhor desce o pignatário piche puro pendor/ torpor anteparando paus pernas espermas/ vorazes varando sexos afoitos/ campos adubados induzindo/ ao infinito conduzindo/ em M despertam suas pernas/ enroscadas no infinito/ em 8 pós‐coito o torto corpo.
    Ou ainda a metáfora do tanque a “jorrar manhã” de Gullar e a minha do leiteiro também a “jorrar a manhã”.

    Poema sujo – quando a gente acorda cedo e fica/ deitado assuntando/ o processo do amanhecer:/ os primeiros passos na rua/ os primeiros/ ruídos na cozinha/ até que de galo em galo/ um galo/ rente a nós/ explode/ (no quintal)/ e a torneira do tanque de lavar roupas/ desanda a jorrar manhã.
   Pomba Poema – tal/ vez que agora é finda a missa/ o leiteiro jorra a manhã em cada porta/ lavada a alma/ – torta?/ descemos em bando famintos da pá‐virada moleques/ a inaugurar o domingo/ sobe‐e‐desce afora/ é quando/ mais belo se faz o pão nas janelas/ pescado/ triturado/ a cada dentada/ esquentando o vazio/ entre a alma e o nada/ era deixado o jornal/ como prêmio/ mas esse não interessa/ estava longe o grêmio/ a palavra impressa.
  E ainda o sobe-desce das ruas, os olhares estrangeiros pelas janelas: São Luís de Cataguases?
     Poema sujo – Descendo ou subindo a rua,/ mesmo que vás a pé,/ verás que as casas são praticamente as mesmas/ mas na janelas / surgem rostos desconhecidos/como num sonho mau.
    Pomba Poema – Descendo/ a rua/ do/ sobe/ e/ desce/ pressinto/cabreiro/ com horror/ que estou/ numa cidade do exterior/ mineiro// que passo é esse apressado?/ que luz é essa amarela?/ quando quem o quê como por quê?/de quem são esses olhos/ quem por trás da janela?
Ainda em Buenos Aires, de maio a julho de 1975, Gullar debruçou-se sobre seu poema de forma frenética, como se tomado por uma força estranha. Ríamos, é certo,/ em torno da mesa de aniversário coberta de pastilhas/ de hortelã enroladas em papel de seda colorido,/ ríamos, sim,/ mas/ era como se nenhum afeto valesse/ como se não tivesse sentido rir/ numa cidade tão pequena. De repente, a fonte secou. Não saía mais nada, mas ele sentia que o poema não estava terminado. Como já disse numa das crônicas anteriores, só em setembro, já angustiado, Gullar lembrou-se de um livro de Lênin, que lera quando estava no Chile, onde havia uma citação de Hegel: “a árvore está no ramo da árvore”. A partir desse conceito, de uma coisa estar em outra, o poeta finalmente consegue terminar seu livro em outubro daquele ano, com dicção e octossílabos a lá João Cabral de Melo Neto:
O homem não está na cidade/ como uma árvore num livro// (...) a cidade está no homem/ quase como a árvore voa/ no pássaro que a deixa// cada coisa está em outra/ de sua própria maneira/ e de maneira distinta/ de como está em si mesma// a cidade não está no homem/ do mesmo modo que em suas/ quitandas praças e ruas.
      No livro “Sobre arte, sobre poesia”, publicado em 2006, dizia Gullar: “Sou um poeta do Nordeste brasileiro, um poeta do Maranhão, da cidade de São Luís do Maranhão. Sou um poeta da rua do Coqueiro, da rua dos Afogados, da quinta dos Medeiros, do Caga-Osso, da rua do Sol e da praia do Caju. Um poeta da casa do quitandeiro Newton Ferreira, da casa de dona Zizi, irmão de Dodô e de Adi, de Newton, de Nelson, de Alzirinha, de Concita, de Norma, de Leda, de Consuelo, amigo de Esmagado e de Espírito da Garagem de Bosta.  Um foragido e um sobrevivente. Alguém que conseguiu escapar do anonimato, que vem do sofrimento interior, da tragédia cotidiana e obscura que se desenrola sob os tetos de minha pátria, abafada em soluços; a tragédia da vida-nada, da vida-ninguém. Se algum sentido tem o que escrevo, é dar voz a esse mundo sem história”.



    Dar voz a esse mundo sem história foi uma das proezas do poeta Ferreira Gullar.