8 de jul de 2016

Poeta de Placa



   
 


   Em 1961, aos 40 minutos do primeiro tempo de um histórico Santos 3 x 1 Fluminense no Maracanã, Pelé recuou e recebeu um passe de Dalmo na intermediária. E deu início ao que foi, para muitos, o lance mais bonito já visto naquele estádio. O Rei arrancou, superando na caminhada Pinheiro, Clóvis e Altair. Diante da chegada de Jair Marinho, colocou a bola, com categoria, no canto direito, longe do alcance do goleiro Castilho. O jornalista Joelmir Beting, ficou tão impressionado que mandou fazer uma placa de bronze para colocar no saguão do Maracanã, com os dizeres: "Neste estádio, Pelé marcou no dia 5 de março de 1961 o tento mais bonito da história do Maracanã". Desde então, todos os gols marcados com rara beleza são intitulados "gols de placa”.
   Que me perdoe meu filho Pablo – Fluminense doente –, mas não é que há poucos dias também eu ganhei uma placa, mesmo não jogando contra o Flu? No último dia 30 de junho, recebi das mãos do Prefeito de Viçosa, Ângelo Chequer, uma bela placa, concedida por ele, pela Secretária de Cultura, Cíntia Fontes Ferraz, e pelo Presidente do Conselho de Cultura e Patrimônio Cultural, José Mário Rangel, com os dizeres: “Ao poeta Ronaldo Werneck, a homenagem do povo de Viçosa por sua participação na 3ª Feira do Livro do Colégio Nossa Senhora do Carmo, nas comemorações do centenário do Educandário”. Ora, por quem sois! De qualquer modo, a partir de agora, meu filho, papai é um “poeta de placa” – o que quer que isso signifique.


 
  Brincadeira à parte, não esperava por isso, nem pela placa me homenageando nem por toda a gentileza e carinho com que eu e minha mulher Patrícia fomos recebidos por todos em Viçosa. Convidado pelas Irmãs Sonia Maria Stevan, Diretora Presidente do Colégio Carmo e pela Irmã Marina, Diretora Financeira do Educandário, por intermédio de meus amigos José Luiz Lopes Gomes, promotor do Festival de Cinema de Visconde do Rio Branco, e pelo advogado e professor Vicente de Castro, editor do Jornal Revista Tá na Cara, chegamos a Viçosa com o propósito de eu fazer uma palestra para os alunos do Colégio, dentro das festividades de seu Centenário. Como fomos direto da Flip, em Paraty, acabamos dirigindo por mais de 500 km e chegando a Viçosa já com a noite do dia 30 iniciada – e não tivemos tempo de assistir à entrega da Comenda recebida por meu amigo Vicente na Câmara Municipal, em homenagem aos seus estudos sobre seu conterrâneo, o compositor Hervé Cordovil. 
   Pois é, eu virei o “Poeta de Placa” e ele passou a ser o “Comendador Vicente”. Nascido em Viçosa, Hervé Cordovil ficou famoso por suas músicas “Sabiá lá na Gaiola” e “Vida de Viajante”, em parceria com Luiz Gonzaga. E também pela versão de “Biquini de Bolinha Amarelinha”. Engraçado lembrar-me disso, pois exatamente no último dia 05 de julho – olhaí, “Comendador Vicente” – o bikini virou setentão, já que foi lançado em 1946. Pois é, aquele reduzido maiô de duas peças – depois tanga, invenção de minha amiga, a designer Inês Mynsen; depois asa delta; e finalmente fio dental – hoje sequer notado, causou escândalo na época e seu explosivo nome deve-se ao atol de Bikini, no Pacífico, onde eram realizados testes com bombas nucleares. 
 
  Não assistimos à entrega da Comenda, é bem verdade, mas chegamos a tempo do jantar que nos foi oferecido, onde recebi a placa das mãos do Prefeito Ângelo Chequer. No dia seguinte, ciceroneados pelo “Comendador” e por José Luiz, visitamos o Colégio Carmo, onde fomos recebidos pelas Irmãs Sonia e Marina. Ali, acompanhados pela professora de biologia Adriana, estivemos no Laboratório, onde nos chamou a atenção um pequeno universo para criação e estudo de formigas – todo um mundo homogêneo, perfeitamente articulado, de causar inveja aos humanos. Depois, o Jardim da Ciência, uma grande área com Estação Meteorológica e um Relógio do Sol. E, na sequência, todo um mundo vegetal: cactos, mandacarus, pau-brasil, pitaia, toranja & otras cositas más, que o José Luiz, que é agrônomo, e também a Patrícia, expert no universo rural, saberiam descrever com mais propriedade do que este “Poeta de Placa”, mas infelizmente néscio das vegetabilidades desta vida. Parte do sucesso do Colégio Carmo, esse contato com o “mundo ao vivo”, à parte a mera teoria ensinada em sala de aula, tem permitido aos alunos do Educandário ótimas colocações nos exames vestibulares.
    Manhã de sábado, 02 de julho, tempo da palestra, lançamento do meu livro e da exibição de um curta que realizei sobre o cineasta Humberto Mauro. Confesso minha preocupação inicial ao ver o público que iria me assistir, pois ao lado de professores e pais, havia uma grande e inesperada quantidade de alunos do Carmo, não só adolescentes como também ainda mais jovens. Em minha fala, intitulada “O poema como ofício”, eu abordava poetas como Ezra Pound, Mallarmé, Rimbaud, os nossos Drummond e João Cabral, além de até mesmo dizer um poema da polonesa e Prêmio Nobel Wislawa Szymborska. Qual o quê! Os “meninos” prestaram grande atenção ao que eu dizia, muitos deles anotando tudo. Ao final, vários deles vieram me pedir autógrafos, não só no livro que adquriram, como também em singelos papeizinhos – e todos querendo tirar fotos comigo, imagina! Isso tudo me deixou, confesso, atônito-emocionado. Mas me mantive firme e cordato, como “sói acontecer” com um verdadeiro “Poeta de Placa”.

5 de jul de 2016

Cine Humberto Mauro em Cataguases


  Coisas de cinema. De salas de cinema. Leio dias desses num jornal de grande circulação que numa cidade do Estado do Rio (qual? Qual? Ó memória que “se escapa-me” – epa, epa, que elocução mais “temerária”) está para acontecer o impensável: uma das igrejas da localidade será fechada e, em seu lugar, aberto o novo Cine Humberto Mauro. Como diz minha filha Ulla, isso é uma coisa do rol das “ina”/creditáveis. Aqui na terra dele, do próprio Humberto, que só nasceu nos arredores de Volta Grande por acaso – pois seu lugar na história de nosso cinema ficou reconhecido mesmo como Cataguases, onde rodou seus primeiros e seminais filmes –, pois é, aqui na terra dele, o Cine Edgard está como está, nem cá nem lá.
Há coisa de sete anos, fizemos um pequeno filme, “Regard Edgar”, que se encontra disponível no Youtube(https://www.youtube.com/watch?v=1QHcWQNTm2o) onde, já naquela época, lutávamos pela preservação e manutenção do cinema como tal. Isso posto, ou por supuesto, lembrei-me então de uma crônica que está em meu livro Há Controvérsias 2. Como o livro está esgotadíssimo, “republicá-la-ei” (epa, epa!) aqui, mesmo porque a multidão de meus jovens e ávidos leitores (dois ou três, é bem verdade) não deve ter conhecimento da bendita cuja. 
Pois é, coisas de cinema. De salas de cinema. O Edgard Cine-Teatro já foi Cine-Cataguases e era chamado de Cinema Novo para não confundir com o velho Cine Machado lá na diagonal da praça Rui Barbosa. Quer dizer, o cinema novo brasileiro, é claro, começou em Cataguases. E onde mais, se foi ali que o jovem Humberto Mauro, o “pai de nosso cinema”, viu seus primeiros filmes na década de 1920, na charmosa sala do Cine-Theatro Recreio (ou Cinema Recreio Cataguazense)?
Coisas de cinema – e nada mais justo que agora eu saia numa campanha ainda solitária, mas que espero logo “acompanhadíssima pelos cinéfilos cataguasenses”, quer dizer, por todos os cataguasenses, que somos todos cinéfilos inveterados, né mesmo? Enfim, uma campanha para que se denomine “Sala Humberto Mauro” à sala de projeção do “Edgard”.  Como é que Cataguases ainda não tem uma “Sala Humberto Mauro”, se até a capital, imaginem, até mesmo BH já possui a sua, como a do cinema do Palácio das Artes, entre outras? 
Vamos em frente. Melhor, para trás. Para as salas de cinema da Cataguases dos anos 50, as que eu conheci. Havia um pequeno cinema ali na pracinha da antiga Fábrica Irmãos Peixoto, não me lembro bem o nome, acho que o sala era do pessoal do Hotel Pires. Os que eu frequentava mais eram o cinema do Nelo e o Barracão, onde os Cunhas projetavam as fitas enquanto construíam o prédio do novo cinema em frente, ali no terreno baldio onde seria o prédio de A Nacional. Antes ainda, o Cine-Teatro Machado, ou nome parecido, o cinema do Seu Nelo, o nosso “Nelascópio”, onde agora é o Centro Cultural Humberto Mauro.
Nos 1950, havia no Nelascópio um corredor, hoje Galeria Zequinha Mauro. No meio dele ficava a bilheteria do cinema. Nelo Machado, o próprio, fazia às vezes de bilheteiro, entre outras coisas.  Costumava também “operar” na cabine de projeção: quando o filme era muito longo, o Seu Nelo, “pulava” um ou dois rolos para ir logo dormir, pois acordava cedo pra “conferir o leite de sua fazenda”. Ninguém nunca reclamou: nos anos 1960, o “Nelo” às vezes passava fitas de “arte”, quase sempre europeias. E sabe como é, “cinema europeu é assim mesmo, ninguém entende direito, coisas da vanguarda”.
Pois então, anos 1950, seu Nelo-bilheteiro. Eu segui ali todo o seriado “Perigos de Nyoka”, minha heroína de peripécias e escaramuças contra beduínos, tuaregues e vilões de vários quilates. Dia do último capítulo, era o primeiro da fila. Eu e minha moedinha para compra do ingresso. À minha frente, o seu Nelo, aguardando para abrir. Atrás, a multidão de meninos aguardando pra ver como Nyoka iria se safar (o penúltimo capítulo terminara com ela caindo num poço-elevador, cheio de lanças de aço que subiam ameaçadoras contra o seu corpo).
Eu brincava com minha moedinha jogando-a pro alto. Não deu outra: ela escapou de minhas mãos e rolou pra trás do Seu Nelo. Que não se fez de rogado: não deixou de forma alguma que eu a pegasse, mesmo comigo dizendo (e todos os meninos confirmando): “olha lá, Seu Nelo, tá ali, atrás do senhor”. Até hoje não sei o que aconteceu com Nyoka. Muitos anos depois, acabei escrevendo o roteiro de um filme (é claro, chamava-se “Perigos de Nyoka”) onde procurava desvendar o que teria acontecido com minha “ídala”. Coisas de cinema, de incidentes que fazem filmes. Mesmo os que não foram feitos.
Agora de volta ao Edgard, o antigo Cine-Theatro Recreio, o Cine-Cataguases dos anos 1950 e de tantas histórias. O cinema e o Seu Edgard. Ah, o Seu Edgard! Sua casa na Rua Dr. Sobral era vizinha da casa do papai. Tarde de sábado, eu fumando na janela, Seu Edgard com seu cano de borracha regando a calçada. Chega o Coelho, mestre-de-obras (e “pau-para-todas”) da construção do novo cinema. Chega e vai logo dizendo: “Seu Edgard, hoje é sábado, tem baile no Rancho Alegre, o senhor pode me adiantar cinco mil réis?”. Seu Edgard, reconhecida e providencialmente surdo, continua a olhar o molhado infinito da calçada. Nem aí pro Coelho. Afinal, surdo é surdo. Coelho insiste: “Seu Edgard, hoje é sábado. Baile no Rancho Alegre. Pode me arrumar dez mil réis”. Vira-se pra ele o Seu Edgard, como se o visse pela primeira vez: “Uai, era cinco e agora é dez?”. Trago e tusso, sufocado pelo riso.
Esse o Edgard, aquele o Nelo. Cinemas que se foram. Nada mais justo agora que o Edgar passe a se chamar Humberto Mauro. “Ué, era Edgard, agora é Mauro”? Quer dizer, a sala de cinema. Que poderia ser inaugurada, inclusive com um dos filmes de Mauro recentemente restaurados pelo CTAv/Funarte. Acho que não há controvérsias, só faltam os devidos “trâmites legais”. Ou coisa (a)parecida.

Cataguases/ 2001 – Do livro “Há Controvérsias 2”

23 de mai de 2016

Cauby! Cauby!


 A recente morte de Cauby Peixoto me fez lembrar a canção que Caetano Veloso escreveu para ele, e que foi título do álbum gravado  em 1980: “Lembro eu deitado na relva/ No frio da manhã/ Numa clareira da aldeia Tupy/ Entre mil pássaros só uma voz/ Uma voz, minha mãe/ Música doce/ Chamando meu nome/ Cauby!  Cauby! “. Lembrei-me também de “Bastidores” a canção de Chico Buarque, aquela do “Cantei, cantei/ Nem sei como eu cantava assim/ Cantei, cantei/ Jamais cantei tão lindo assim” – um de seus carros-chefe. E, claro, “eu me lembro muito bem”, e sempre, de “Conceição”, a música de Dunga e Jair Amorim por ele imortalizada.

   Em meu livro “Há Controvérsias 2” (Ed. Artepaubrasil, São Paulo, 2011), publiquei duas crônicas tendo como mote Cauby Peixoto, ou melhor, um dito ao acaso de minha irmã sobre ele. A tirada da Rosa acabou gerando os dois textos. Um deles, sobre pessoas que brilharam, que “arrasaram” em seu métier; outro, ao contrário, sobre o pessoal que “se ofuscou”, pisou na bola – literalmente aqueles que “desarrasaram”.  Na segunda-feira, 25 de abril de 2012, véspera do lançamento do livro em São Paulo, li que Cauby iria cantar no Bar Brahma, onde às vezes vou quando estou em Sampa, ali naquela esquina famosa da Ipiranga com a Avenida São João. Resolvi assistir ao show e aproveitar para levar um livro pro Cauby, afinal ele era um dos personagens do dito cujo. Mas Cauby acabou não aparecendo e quem fez o show foi Elza Soares – que, aliás, e como sempre, “arrasou”.
      Havia muito tempo que não o via, desde uma noite no Rio dos anos 1960 em que saímos de sua boate, o Drink, na Av. Princesa Isabel, e caminhamos – eu, Cauby e o baterista Afonso Vieira (que tocara com ele) madrugada afora até a porta de seu edifício no início da Rua Barata Ribeiro. Cauby morava nas proximidades de onde eu e Afonsinho nos “escondíamos”: no Edifício Richard, o famigerado “200”. Ele acabara de fazer magnífica performance, cantando standards do jazz numa jam-session no final da noite, e foi sobre isso que nós três ficamos conversando de pé ali, e noite adentro – Cole Porter, Gershwin e mais, muito mais – num tempo em que ainda se podia papear sem medo nas calçadas de Copacabana. Eu com o pescoço doendo de tanto olhar pra cima: o “professor” (como Cauby tratava as pessoas, qualquer pessoa) era alto, muito alto. De entortar qualquer pescoço.
Nunca mais o vi. Minto, passaram anos muitos anos quando num show do Marcos Valle naquela boate que ficava no subsolo do Hotel Méridien, depois que a Regine´s acabou (como era mesmo o nome? Acho que “Rio´s”, mas há controvérsias), percebi na mesa à minha frente, em meio ao lusco-fusco, o perfil da moça com muito chiquê, de longos cabelos ondulados, que tentei lembrar de onde conhecia. Súbito, ela se virou ligeiramente. Levei um susto: era o Cauby – ele que gostava de brocados, lamês & paetês e que sempre, dentro ou fora dos bastidores, “com muito brilho se vestiu”.  
  “Sim, eu me lembro muito bem” – assim começa uma das duas crônicas que escrevi sobre o Cauby. “O aniversário da Rosa estava acaba-não-acaba quando ela colocou para girar um disco com não sei quem cantando. Possivelmente a Elis, até hoje a preferida de minha irmã. A turminha começou a nomear seus cantores/cantoras preferidos, quando alguém tocou no nome do Cauby Peixoto. O pessoal caiu de pau no coitado do Cauby: ridículo, cafona, um repertório que vou te contar. Foi quando a Rosa mandou de lá: “É, pode ser, mas o Cauby arrasou na Conceição”.  Nunca vou me esquecer daquele “Arrasou na Conceição”, uma tradução mais que perfeita da grandeza de qualquer um, artista ou não, mesmo quando ataca da “Conceição”, aquela que “vivia no morro a sonhar com coisas que o morro não tem”.
A seguir, eu continuava elencando nas duas crônicas e por vários parágrafos uma série de “arrasos na Conceição”, de Ella Fitzgerald a Elis; de Cole Porter a Tom Jobim; de Jeanne Moreau a Giulieta Masina;  de Truffaut a Fellini; de Nara cantando Lindoneia a Gal cantando Lily Braun; do show de Caetano para Fellini, em Rimini, ao mesmo Caetano de Força Estranha e do álbum Transa; do Vinicius do poema O Haver ao Maiakóvski de A Plenos Pulmões; do Lance de Dados de Mallarmé ao Barco Bêbado de Rimbaud; do João Cabral de Duas Águas ao Drummond de Elegia 1938; do Ungaretti de Mattina ao Keats de “A thing of beaty is a joy forever”. E também de “desarrasos na Conceição”: J. Edgard Hoover, o chefão do FBI, dando uma total “desarrasada na Conceição” ao falar sobre John Lennon: “Não há espaço nos EUA para algumas almas tímidas que pregam a paz a qualquer preço, nem para aqueles que entoam os slogans ´antes comunista que morto´ (better red/ than dead). Precisamos de homens e mulheres com capacidade para a indignação, para defender a causa da democracia”.
Mais tarde Hoover foi rebatido por Gore Vidal: “(...) Lennon era um inimigo nato das pessoas que governavam os EUA na época. Ele era tudo que eles odiavam. Eu diria que ele representava a vida, o que é admirável. E Nixon e Bush (e Hoover, acrescento) representavam a morte. E isso sim, é uma droga”. Em 1976, com Nixon já defenestrado do poder, Lennon ganha a causa e recebe o Green Card. Perguntado se tinha algum ressentimento, John arrasou geral na Conceição: “Não, acredito que o tempo se encarrega dos patifes”. Poderia acrescentar, hoje, que os senadores Lindeberg Farias e Vanessa Grazziotin andam arrasando na Conceição, em descompasso com Cunha & Temer, um só e tenebroso “desarraso”.
Termino esses “recuerdos de la Concepción” reproduzindo o parágrafo final de minha primeira crônica sobre Cauby in “Há Controvérsias 2”: “Madrugada dos anos 60: Copa-Leme. Antes de chegar em casa – vindo não sei de onde, nem sei como –, entro prum último drink na boate do mesmo nome, dos irmãos Araken, Moacir e do não menos Cauby Peixoto, o próprio. Fim de noite, fim de show, derradeiros bêbados em mesas separadas, garçons sonolentos, lusco-fusco. No palco, alguns dos músicos que restaram abrem uma derradeira jam-session: meu caro amigo Afonsinho na bateria (sua bateria, aquela “Conceição” que ele arrasava sempre), o jazzista Moacir no piano. Cauby acabara seu show, onde Conceição naturalmente fora a estrela. Copo na mão, cigarro na outra, volta ao palco e entra no embalo do improviso. Ataca de Cole Porter, sempre ele, um formidável I´ve Gotta You Under My Skin. Aquilo inoculou em minhas veias uma inesquecível sensação. Nunca mais ouvi nada tão intenso. Ali foi quando, sem o saber, Cauby realmente “arrasou na Conceição”.



10 de mai de 2016

Rosário Fusco:um espetáculo


Rosário Fusco de novo e sempre. Após publicar uma série de crônicas sobre a entrevista que eu e Joaquim Branco fizemos com o escritor, que saiu no Pasquim há quarenta anos, lembrei-me de um texto que escrevi também nos anos 1970 e de que Fusco gostava muito. Ele foi publicado em 1985 no livro “Marginais do Pomba”. Editado por Fernando Cesário, Joaquim Branco e por mim, “Marginais do Pomba” era uma antologia de textos de vários escritores cataguasenses, dos Verdes dos anos 1920 ao grupo da Revista Meia Pataca, anos 1940; daí ao pessoal do Totem, década de 1960, chegando aos então novíssimos dos anos 1980.
Como aqueles imponderáveis personagens do realismo fantástico (evoé, Fusco!), também o personagem do meu texto-entrevista (verdadeiro? fictício?) repetia sempre o seu bordão “eu sou um espetáculo”, como se vírgula fosse. A partir daí, Fusco não podia me ver sem bradar do alto dos seus metro e oitenta: “eu sou um espetáculo”. Era mesmo: não o meu personagem, mas o próprio Fusco. Meu texto vai a seguir, como mais uma homenagem ao meu espetacular amigo Rosário Fusco de Souza Guerra.


RINGO NÃO DISCUTE: MATA
 Três indivíduos armados com metralhadoras penetram em uma agência bancária no interior do Rio Grande Sul e rendem o gerente. Sorrateiramente, o guarda do banco saca seu 38 carga dupla e com o braço colocado às costas – no melhor estilo dos caubóis – liquida de uma só vez os assaltantes.
Assim Luiz Mendonça, 37 anos, solteiro, guarda bancário e fotógrafo amador, explica o cognome de Ringo. Onze mortes nas costas (“mas pela frente”), inclusive um goleiro do Coríntians (“eu era centroavante do Santos”), morto com potente tirambaço (“a pelota bateu na trave e acertou nas costas, bem nos rins: morreu na hora”).

Traído pelos coronéis
Ringo é do interior de Minas, filho de índia com espanhol (“mas eles gostam de ser brasileiros”). Foi tropeiro, carregou caminhões de terra, cortou bambu para fábrica de papel. “Meu passado é muito triste, sou um humilde, um humilhado. Mas sou um espetáculo”.
Aos 20 anos entra para a polícia em Belo Horizonte e acaba indo para o Rio Grande do Sul com o SEG (Serviço Especial de Guarda), “na captura de bandidos”. Pelo sim, pelo não, terminou expulso após longa temporada num Hospital Psiquiátrico. Dezessete vezes tratado a choques elétricos. “Fui traído pelos coronéis”.
Fotógrafo de polícia, fazia reportagens com Pio XII, “o Amaral Neto da época”. Aprendeu sozinho: “sou um burocrata formado, um autodidata fotográfico. Faço reportagens e os clientes não pagam. Mas não sou moleque: jamais bato flash sozinho para enganar a freguesia. Sou profissional honesto e positivo. Eu sou um espetáculo”.

Um espetáculo
Nove horas da noite num botequim do interior de Minas. Cabelo à francesa, literalmente penteado pra frente, camisa vermelha com bolotas brancas, terno de linho branco com bainha dupla, imensos óculos escuros cobrindo quase metade do rosto, máquina fotográfica a tiracolo, Ringo rides again.
Entre um chope e um conhaque, e outro, e outros, fala de sua ida à Europa, Oliúdi & adjacências, acompanhado o indefectível Pio XII, “um espetáculo, o maior repórter que já existiu”. Relembra um campo de nudismo que fotografou: “Uma pouca vergonha. Não ignorei a pátria deles (Oliúdi?), mas ela é porca. Não é como o Brasil, onde vivemos prazerosamente e a amizade é total. Aqui não existe covardia. Melhor do que o Brasil só Deus. Mas sou internacional”.

Sexual masculino
       Para de repente, leva um cigarro à boca, acende-o à maneira dos mocinhos de cinema, riscando o fósforo com uma só mão, e emenda de um jato, quase sem respirar: “Sou um infeliz no mundo. Mas sou muito honesto. Dou muita falta de sorte com as mulheres. Fui noivo, mas casamento não é pra agora, é pra hoje ou amanhã. Mulher é mulher: namorada dá dor no saco. Incha. As mulheres são comerciais de acordo com a frequência do sexo masculino”.
    Solta a fumaça, esvazia o corpo, estende o indicador e completa solenemente: “Mas eu frequento o feminino. Sou um sexual masculino. Sou um cara psicológico, um espetáculo”.
      A vitrola do botequim ataca de Roberto Carlos, mas Ringo rebate de sola: “Esse cara não é bom, bom mesmo é o Waldick Soriano. O Waldick é um grande patriota, como o Presidente João Figueiredo: amou, cresceu e lutou pelo Brasil. Já o Pelé é patriota em despedida. Jango, não sei, foi traído. Mas JK era um bom patriota, como o Getúlio, que foi um espetáculo, o dono do Brasil. Tudo que o Brasil faz é bom porque tem progressão. A democracia sou eu. Amo a terra em que vou morrer.”

Deixa comigo
    “Quando era menino, meu pai me deu uma chicotada por causa de um boi. Mamãe me protegeu. Papai me abandonou no mundo. Gosto muito da mamãe. É uma piranha, mas gosto dela: é mulher patriota, um espetáculo.
     “Meu revólver é silencioso e sou rápido como o Ringo. Puxo mesmo o gatilho. Mas me arrependo das mortes que fiz, é um horror a minha vida. Dormindo, as mortes me sobem pelas pernas, como minhocas. Sou mau, mas não faço maldade. Deus não deixa. As boas amizades é sempre a mim, entanto a maldade não existe entre ambos (põe aí – ambos: plural). Meu passado total é uma tristeza. Sou muito psicológico, eu sou um espetáculo.”
      Nessas alturas, já de porre, Ringo cisma que o dono do botequim está nos olhando de soslaio. Tira os óculos e diz, tão solene quanto lhe permite a voz pastosa: “Deixa comigo”. E dá de alisar a cintura. Percebo que o famigerado 38 esta sob o paletó. Realmente, uma loucura. Só a custo consigo retirar nosso herói do chamado recinto. Ringo some dentro das pradarias da meia-noite, o andar gingado, de caubói bêbado. Um espetáculo cambaleante e para sempre. 

27 de abr de 2016

Fusco no Pasquim 7: Nada vale nada com algemas

Como bônus à série de crônicas sobre a entrevista de Rosário Fusco que eu e Joaquim Branco fizemos pro Pasquim em 1976, encontra-se a seguir o famigerado e “impublicável” (pelo menos na época da entrevista) poema “Edital de Demissão e Ponto”, que pertence ao livro de poemas inédito “Creme de Pérolas”. 



Edital de Demissão e Ponto
Entre suas pernas...
se avança o céu dessa estranha boca,
pálida e rosa, feito a concha marinha
Mallarmé
                                                            ... És como a hóstia consagrada no altar:
                                                 realçada por um corte ritual escarlate
                                                                                                   Saint-John Perse


Meu caro poeta:
meta
a lira no cu
(mesmo que doa)
e vê se te aquieta.

O mundo mudou tanto que
amanhã
a lua será lixeira, à toa,
privada e refúgio da terra
emudecida,
seu Orfeu.

Erra,
quem pensa
que as palavras valem
hoje em dia
— pois a palavra é poesia
e a poesia morreu.

São cibernéticos os contatos
dos homens com os homens
e dos homens com as coisas.
Números.

Mede-se a gestação do feto
pelo reto,
como se mede o tempo da trepada
ou da correspondente dor de corno
oriunda
                                                 de vero pendor
por bunda ou impossibilidades tais:

mula/ cistite/ colicistite/ cálculos renais
brochura/ ou câncer/ou cancro no pau.

Nada vale nada com algemas,
e os filhos das pílulas,
feitos ou desfeitos pelas ditas,
são tão filhos da puta que
dispensam

o pai/ a mãe/ o irmão/ a irmã/a tia
o tio/os avós/ os vizinhos/ amigos
compadres/comadres/parentes
ou conhecidos gerais, mas,
sobretudo

o teu gorgeio inútil,
de inusitados sons concretos,
montagens de ruídos antissemânticos.

Só que
o morcego recebe o ar
dos cosmonautas
...mas sem piar.

Não é possível mais cantar:
o canto entope,
engasga e sufoca.
Radar.

A poesia do cosmo chega em vibrações secretas
do telstar:
                               omite
                               e
                              demite poetas.


Não tens mais,
como ofício ou serviço,
do que captá-la ou emiti-la pelo(a)

suor/ hálito/ saliva/ mijo/ bosta
soluço/ suspiro/ riso/ porra
lágrima/ masturbações/ peido

mau pensamento
ou arroto na escala das afecções
ou de orduras exportáveis:
do corpo
e da alma.

Não sê mais escroto
ó cantor do perecível
e limitado
                 – pelo quadrado
                              sem raiz
                                   do mundo em liquidação.

Nas futuras próximas galáxias
a ser defloradas
e já quase ao alcance de tuas mãos
veremos,
prezado,
se ainda terás vez.

Não havendo mais segredo,
Dona Inês.

Nem mistério,
nem flor de verdade,
és a pura e simples terceira matéria
metida a sebo no planeta formi-plástico
até que a quarta te destrua

no quarto ou no refúgio anti-aéreo
                                       bomba
aguardando a sexta
                          feira aziaga ou a cesta
em que Deus, puto da vida,
no mindinho
                         globo celestial
pra refugá-lo no
                            grenier:
                                          voilá.

               Por inútil
               fútil
               inconsútil
uma vez que és à semelhança dele...
               — de araque,
                    sua besta.

Se cantas empós de boceta,
ou a fim de punheta,
faz um filho na proveta:
                porque, verso,
qualquer robô já faz.

Zipe na boca, rapaz,
— não poetisa mais.

Repito:
— meta a viola no saco,
                se é que inda tens saco
                ou gana de meter
(do verbo enfiar algo em algum lugar).

Pois-pois
meta em ti mesmo o
resto de pica que tiveres,
se tiveres,
na boca,
no cu
ou nos dois.

Depois...
silencia.

                   Passarinho atolado na merda
                   não janta:
                   — nem canta.


Rosário Fusco

De Creme de Pérolas,
1972 (inédito)


20 de abr de 2016

Fusco no Pasquim 6: Rilke, Rosa, CDA & etc

Finalizando a série de crônicas sobre a entrevista de Rosário Fusco que eu e Joaquim Branco fizemos pro Pasquim em 1976, encontram-se a seguir – e provocadas por nós – algumas das “tiradas fuscais” sobre escritores daqui e dalhures. Semana que vem, como bônus, vamos publicar “Edital de Demissão e Ponto”, o poema “impublicável”, que nem mesmo o Pasquim publicou.   


ALGUNS MEDALHÕES LITERÁRIOS BY FUSCO  

Rosário Fusco: “A regra é considerar ressentida a opinião de um autor sobre outro, outros, principalmente num país em que os leitores são mais autores do que os próprios. Procurem entender. Posso discutir uma ideia: não posso discutir uma afinidade, cujos implicações têm raízes num modo que a lógica desconhece. Em homenagem a vocês, corro o risco de pensar em voz alta, com a lista na mão”.   



GUIMARÂES ROSA – Hábil inventor de palavras: inventor ou restaurador? Numa carta ao seu tradutor alemão, confessou que seu ideal seria escrever nesse idioma, por lhe permitir as mais imprevistas combinações vocabulares. Essa renúncia potencial à língua de origem delata a ambição do candidato à posição de executivo universal de um tempo de romance. Nenhum reparo à determinação: disse-o a ele, quando vivo, cara a cara, muito tempo depois de eu ter escrito sobre Sagarana. Acontece que não creio nos inovadores conscientes. O sucesso de Guimarães Rosa – sempre justificável – é o sucesso do autor difícil daqui ou dalhures. Entre os dalhures, não citarei o sovado Joyce: mas Raymond Russel. Foi um artesão diabólico, maior do que o cordisburguense. Esvaziou-se a ponto de poucos saberem que existiu. Como o nosso patrício se esvaziará, quando a safra de seus pressurosos exegetas não dispuser de mais chaves para abrir portas abertas. Todos querem explicar o escritor: do homem de laboratório ao homem de rua. A obra vai-se alargando, alargando. Um dia, descobrirão alarmados que a leitura de imaginação não é só feita de palavras. Mas sobretudo do concurso de experiências inconscientes que, no ato criador, explodem: aquém ou além da vontade do ajustador de curiosidades verbais às situações que ele se propõe a manipular, sem conhecê-las. Mas até lá (a rosa de Malherbe pode durar um dia ou um século), Guimarães Rosa será lido, discutido, “compreendido” seus neologismos se incorporarão à linguagem corrente, como os aportados pela psicanálise, por exemplo. Alguém em conversa, dirá que sofre do “complexo de Rosa” outro indagará: “Que Rosa?”. Pronta explicação: “da rosa, uai.” É a glória. De passagem: já leram o super-erudito prefácio da tradução francesa do Buriti?  

   
CARLOS DRUMMOND – É o meu poeta, o nosso poeta nacional. Pena a sua repentina, prematura, impermeabilização às louvações, menores, triviais, esquecido do vita brevis, com ou sem ars longa. Em Santo Antônio do Monte (informações do teatrólogo Alexandrino de Souto, a segunda pessoa mais importante nascida na terra, depois de Magalhães Pinto) já distribuem, para marcar livros, a efígie do vate em tiras de cartolina. Recusou o prêmio maior da Academia (nordestina) de Letras. Recusou uma cadeira na dita. Numa cadeira de balanço (leia-se Freud) à espera da vontade de fumar. Toujours fidèle à Nobel. O diabo é que, nesta altura, Jorge Amado já esteve em Estocolmo, para os devidos fins. O diabo é que ir à Canossa não é bossa de mineiro: que ela venha a ele primeiro. Não importa: um dia (certíssimo) Itabira se chamará CDA. Então, os chefes de trens em trânsito, na parada do desvio, gritarão: “CDA, CDA... cinco minutos pro café“. É o Nobel ferroviário: a gloria que fica, honrada e, talvez, acabe consolando. Em termos de ferro, de orgulho e de cabeça baixa.   

FERREIRA GULLAR & DÉCIO PIGNATARI – Só os conheço de ouvido, através de percussões não identificados, vindas daqui e dali. Como percebem, sou um sujeito “por fora”.  

AUGUSTO & HAROLDO DE CAMPOS – Os concretistas de São Paulo só agora descobriram o espaço semântico de Mallarmé, modismo mais velho do que a Sé do Braga, também por ele copiado de bardos (que beleza de palavra) medievais, quando falavam ou escreviam. Não se renova por fora, mas por dentro. 

MALLARMÉ – Interessa mais a vocês, poetas-processo, processualistas (foram, ou continuam?), do que a mim. A teoria do espaço semântico, que ele insinuou, é o alpiste dos que se engasgaram com os dados de 1897 (data da publicação do poema Un Coup de Dés). Os canoros pássaros de hoje já comem affiches: comida de mais fácil ingestão e... digestão quase feita. 

FERNANDO PESSOA – Um chato em e com inumeráveis pseudônimos. Deve sua permanência aos exegetas, aos adidos culturais portugueses, às puxações ingênuas dos poetas provinciais, que não puderam ir além do meu prezado Emílio Moura.  

DALTON TREVISAN – Alquimista dos fatos diversos que, pachorrentamente, trasmuda em pílulas (textos) acridoces, bem licopodiados. Um Nelson Rodrigues (“A vida como ela é”) com melhor dramática e senso de densidade dos corpos (personagens e situações): às vezes estranhas, às vezes, manjadas.

GRACILIANO RAMOS – Foi uma das minhas debilidades literárias, do rol das confessáveis. 

MURILO MENDES – Na minha opinião é maior do que o Carlos: ele inventou no Brasil o que faria a glória de Dylan Thomas e do Cummings, acho que muito depois. Antes ou depois ele fez aqui o que eu chamaria de poedrama, a poesia de situações, que os idiotas começaram depois do Poema Patético (cito este como poderia citar O Caso do Vestido etc) do Drummond. Depois, o onírico em Murilo não precisa de chaves nem de exegetas para utilizálas. Ele sempre viveu estados poéticos, mais sensíveis do que experimentais, o que revela sua genialidade: capacidade constitucional de inventar sem a preocupação de.

MÁRIO DE ANDRADE – Um grande, profuso e torrencial correspondente. (Fusco tem em sua casa “quilos” de cartas enviadas por ele.) Mas suas famosas cartas não dizem o que ele dizia. Quanto a Macunaíma (que o indianista Nunes Pereira poderia ter escrito, dispondo de iguais “fundamentos”) é muito melhor na versão cinematográfica do Joaquim Pedro de Andrade.

FELIPE DE OLIVEIRA – Sócio de um laboratório de produtos farmacêuticos. Nas horas vagas, acendia lanternas verdes em louvor de Orfeu. Não sei se ainda existe uma fundação com o seu nome. Distribuía prêmios literários entre escritores ameaçados de despejo por falta de pagamento. 

GRAÇA ARANHA – Especialista em escrever sobre assuntos dos quais não pescava neca: filosofia, estética... etcétera. Quando seu amigo Tristão de Athayde “interrompeu” sua Viagem Maravilhosa (romance de uma Teresa mais germânica do que tropical), teve duas ameaças sucessivas de enfarte, nos altos de um apartamento da comportada Cinelândia dos bons tempos. Nome de avenida.

RONALD DE CARVALHO – Suplente de Graça Aranha. Nome de rua. 

RIBEIRO COUTO – Não o li para guardar, não o pratiquei pessoalmente: correspondi-me com ele. Era o símbolo do “homem cordial” para Odylo Costa (filho) e Peregrino Júnior, por sua vez, dois homens cordiais. Mas por isso nada tem a ver com a literatura.

GUILHERME DE ALMEIDA – Versejava bem. O JG do seu tempo, guardadas as proporções a favor do paulista. 

ADELINO MAGALHÃES – Tipo do chamado homem de bem. Para Paulo Armando e outros moços “precursor de tudo”, inclusive de boa vizinhança em Santa Tereza.

TASSO DA SILVEIRA – Puxa a lista dos injustiçados de ontem e de hoje, de Eloy Pontes a Francisco Karam. 

RILKE – Tinha tantas perebas psicossomáticas que nem Rodin conseguiu descascá-las a cinzel. 

RIMBAUD – Um mito (aliás, minuciosamente desmontado pelo professor Etiemble) cada vez mais acariciado pelos jovens da poderosa confraria de Verlaine.

OSWALD DE ANDRADE – Morreu de talento... É a urna de cinzas detergentes do modernismo.   

13 de abr de 2016

Fusco no Pasquim 5: No bidê de Maria Antonieta

 A seguir, a terceira parte da entrevista de Rosário Fusco que eu e Joaquim Branco fizemos pro Pasquim em 1976.


O ESCRITOR BRASILEIRO É UM SUPERCAMELO 


 PASQUIM – Quais os melhores poetas e romancistas brasileiros?  

    FUSCO – Todos os que pertenceram ou pertencem às Academias de Letras do país, da nacional às municipais, passando pelas estaduais, inclusive o endiabrado mulato que fundou a Academia (nordestina) de Letras.  

   PASQUIM – O que mais te impressionou em tuas andanças por Paris, além de ter dado “solene regada no Sena” como nos disse certa vez?  

    FUSCO – Os legumes daqui (de Paris) têm um cheiro, um suco (abundantíssimo) e um sabor desconhecido para nós. Excusez-moi du peu, mas foi o que mais me impressionou, até agora, na França: porque homens, mulheres, crianças, casa e lugares públicos – café, bares, cinemas, restaurantes, teatros, metrô, ônibus – cheiram mal. Qualquer coisa ardida, entre melão pobre temperado com vinagre e algo de açúcar de beterraba: um horror para o meu afro-nariz, sensível ao micro-cheiro. A vida literária francesa é tão suja quanto a brasileira (os homens são iguais em toda parte, pudera) e os grandes nomes daqui só são grandes nomes aí. J’ai touché Montherlant, Cocteau. Duhamel, Céline (80 anos sem tomar banho) e outros cretinos iguais aos nossos nacionais medalhões. Louis-Férdinand-Céline não concebe (vive miseravelmente, sustentado pela jovem mulher – 30 anos, no máximo – professora de dança) que ele só possa vender 30.000 exemplares de um seu romance qualquer, quando o secretário de Brigitte Bardot vende 300.000 de suas memórias só na chamada área parisiense. Mas é isso: ninguém vive de literatura. Os tipos que a praticam ou são ricos de pai e mãe (Montherlant, por exemplo, é nobre e capitalizado) ou são, de pai e mãe, paupérrimos. Uma lástima. Lástima ou pândega? Meu Deus, como tudo é igual, e a mesma coisa vem ser o inédito aleatório do existente (bonita frase e difícil de entender). Tradição e civilização, não é? Mas não haverá uma hierarquia nas “civilizações”? A França tem, no mínimo, 1.000 museus. Mas terá, no máximo 500 banheiros. E, por aí, vocês podem concluir a diferença entre a civilização e progresso. Acontece, ainda, que civilização é um estágio, um “momento” do progresso. Concluam, se quiserem. No bidê de Maria Antonieta, eu vi com meus olhos, está escrito – laissez venir à moi les petits enfants. Mme. de Montespin escreveu um tratado (300 páginas, composição corrida, cerrada, corpo 8 antigo) sobre a arte de tomar banho com um (sic) copo d’água. Luiz XV só tomou dois banhos: um quando nasceu e outro quando morreu – ou depois de morto. Os grandes museus falam de tudo, menos da autenticidade francesa. A elegância da mulher, aqui, é artigo de exportação: como a cultura, a ciência, a água de cheiro, a indumentária e o resto. No Brasil, a gente gasta um dia inteiro para achar uma feia. Em Paris, vocês gastarão meses para encontrar uma bonita. E as que se podem chamar de “boas” (no argot brasileiro) em geral vieram... da América do Sul. O francês médio é de uma burrice espetacular (não sei se já lhes falei isso) e o culto, ora, o culto não vale o nosso “meio” cultivado. Qualquer anedota de português (como somos injustos com os portugueses) você poderá aplicar, sem susto, ao francês: será sempre exata, justa, correta, adequada e... verdadeira. Para arranjar divisas, o austero De Gaulle chegou a permitir a impressão de selos (não consegui um exemplar, tal a procura universal filatélica) da Brigitte Bardot com o derrière exposto ao vento: voilà.

    PASQUIM – O que você acha da “onda estruturalista” que afoga o ensino de literatura nas universidades? 

    FUSCO – Quando um sujeito, depois de massudo arrazoado sobre um tema “esférico”, já em si e por si difícil, vem com um “o que eu quero dizer é o seguinte”, fazendo o exegeta de si mesmo, o que ele vier a dizer será mais confuso ainda. O negócio é aquilo do vosso Compadre Boileau: “o que se pensa com clareza, com clareza se enuncia”. Um professor de história literária – a literatura é um processo – que se apega a minúcias filatelistas, devia colecionar caixinhas de fósforo e não datinhas que nada significam. O romantismo começou com os Suspiros Poéticos e Saudades? Por quê? A história das letras no Brasil começa com a carta de Pero Vaz? Por quê? A periodologia é coisa de professor universitário e só voga nos compêndios, para provar que a história é uma invenção privada de quem a faz. Cada vez entendo menos essa sucessão de equívocos (estruturalistas, para empregar a palavra da moda) envolvendo e moendo pessoas. Dar nome aos bois não lhes muda a essência ou natureza. Daí a precariedade dos ismos. Basta a comemoração dos gritos que nos entulham os ouvidos: do “Fico” de Pedro I ao “Eu vou” do falecido Getúlio Vargas.  

    PASQUIM – A cultura, a civilização, o caos dos mass-media, o que pensa Rosário Fusco dessa confuzione toda?
 FUSCO – O audiovisual das comunicações cotidianas desmoralizou o mistério das terras e das gentes. Cartões postais, slides, livros e discos desmoralizam, hoje o conceito de cultura. Num excelente artigo no Le Monde, Ionesco perguntava o que é cultura. Se eu o tivesse en face eu diria cultura, sua besta, é informação. Mas informação metabolizada e não apenas codificada em termos de computador (máquina que guarda sem sentir). A poesia “progride” em nós ou fora de nós? É um tema de estética. E em estética o óbvio sempre precisa ser demonstrado. O eterno é o moderno... com apelidos episódicos. Não se modifica o que o grande Barbudo (no alto não há gilete... ou há?) criou. O resto não é apenas o silencio do nosso Shakespeare, mas o elenco de words, words, words, no dito ameno. Não acredito muito no próximo, mas no próspero.  

   PASQUIM – O que diz Rosário Fusco sobre Rosário Fusco? 

    FUSCO – Desse, posso testemunhar sem a pecha de suspeito. Se nada fez que prestasse, até agora, daqui por diante (pra lá dos sessenta – sexappealgenário, como diria o Oswald) nada fará. Com a velhice chegando, estou virando objeto de anedota: sujeito, objeto e (ou) a própria. Outro dia – saiu numa coluna de jornal – me “viram” ou ouviram cantando tango no Zum-Zum. Como gozação, é o máximo. Minha postura permanente é a do Cristo no Corcovado – braços abertos... o que não impede que, de estalo, eu resolva cruzá-los para uma ruidosa e federal banana. A biografia de Rosário Fusco? Quá, quá, quá: homem comum não tem biografia – sobrenada no mar existencial e já é muito. Não o lamentem, por favor. O homem está em estado de dentadura postiça e já não pode rir como antes ria de fazer inveja ao Newton Braga. Mais alguma coisa? Gracias, já estou intoxicado. Vou tomar um necroton. Et voilà!   

Continua na próxima semana