10 de jan de 2017

GULLAR ANTE(S) (D)O ESPANTO - 5

Pomba Poema sujo  




    “A experiência da poesia é hors-concours./ Aterro no Poema Sujo. Meto o dedo no cujo:/espirra luz.// (...) Navegar na poesia: reduzir, redundar.../ Em Ferreira Gullar as nuvens nuvem./ Murilo Mendes manda o luar luar”, escrevia em 1982 Carminha Ferreira, a injustamente esquecida poeta mineira Maria do Carmo Ferreira, até hoje inédita em livro. O poema de Ferreira Gullar marcou época – e Gullar, o poeta, foi objeto de várias controvérsias, como se percebe no texto a seguir, publicado por meu amigo, o também poeta e jornalista Carlos Ávila, em sua coluna na Revista Eletrônica Dom Total.
    “Segue-se o Poema sujo, de grande repercussão. Tenso e intenso – uma espécie de suma poético-autobiográfica –, mas longo e desigual (como a neobarroca Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima), esse poema é considerado o ponto alto da produção de Gullar: “vozes perdidas na lama”. Poema Sujo ganha muito quando lido pelo próprio poeta (há registros em CD e DVD) – possui uma dimensão oral, a presença do ritmo da fala na escrita. A morte de Gullar é a morte da poesia-espanto, do poema sujo de vida (e – por que não? – também de morte). Contraditório – estética e politicamente –, com seus altos e baixos (o que levou este colunista a nomeá-lo, oswaldianamente, ´IrreGullar´, num comentário anterior), o poeta maranhense criou uma poesia única, suja de lama e de alma – entre as mais significativas da segunda metade do séc. 20 no Brasil”.
    Gullar começou a escrever o Poema sujo em maio de 1975. Ele achava que seria o derradeiro poema de sua vida, já que vivia exilado e sem passaporte (negado pela Embaixada brasileira) numa Buenos Aires às vésperas do golpe militar e sem ter pra onde ir, rodeado por uma série de ditaduras em grande parte da América Latina. Não sabia como iria desenvolver o poema, que começa a sair (“vomitado”, segundo ele) de modo estranho e sem sentido, para espanto do próprio poeta: turvo turvo/ a turva/ mão do sopro/ contra o muro/ escuro/ menos menos/ menos que  escuro/ menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo/ escuro/ mais que escuro:/ claro...”. Mas Gullar deixou a abertura assim, incompreensível até mesmo para ele. O poema só teria seu real começo à frente: um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas.
    E se encadearia na sequência “modernista”, como fala de dicção cotidiana – e flutuaria na cabeça do poeta e em sua escrita incessante, como febre, obsessão, por quase sete meses: eu não sabia tu/ não sabias/ fazer girar a vida/ com seu montão de estrelas e oceano/ / bela bela/ mais que bela/ mas como era o nome dela? perdeu-se na profusão de coisas acontecidas// (...) Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos e pais dentro de um enigma?/ / quanta coisa se perde/ nesta vida// Como se perdeu o que eles falavam ali/ mastigando/ misturando feijão com farinha e nacos de carne assada e diziam coisas tão reais como a toalha bordada/ ou a tosse da tia no quarto/ e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa janela/ tão reais que/ se apagaram para sempre/ Ou não?

De tarde, prata. De noite, mata
    Na antevéspera deste Ano Novo, conversava sobre as muitas mangas de dezembro com Dona Alva, avó de minha mulher, Patrícia. E logo me lembrei de minha Tia Carmem-Cacai e de suas superstições: “Manga com leite, manga com banana: é tudo muito perigoso. De noite, então, é morte certa”. Quando falei em banana, Dona Alva logo articulou os versos folclóricos da “maldição” da banana: “De manhã, ouro./ De tarde, prata./ De noite, mata”. O que me remeteu de imediato ao Poema sujo e à sua profusão de bananas podres: Uma banana/ não apodrece do mesmo modo/ que muitas bananas/ dentro de/ uma tina// no quarto de um sobrado/ na Rua das Hortas, a mãe/ passando roupa a ferro/ fazendo vinagre//(...) // e as bananas/ fermentando/ trabalhando para o dono – como disse Marx –/ ao longo das horas mas num ritmo/ diferente (muito mais/ grosso) que o do relógio/ fazendo vinagre// um rio/ não faz vinagre/ mesmo que um quitandeiro o ponha para apodrecer/ numa tina// um rio não apodrece como as bananas//...//E como nenhum rio apodrece/ do mesmo jeito que outro rio/ assim o rio Anil/ apodrece a seu modo/ naquela parte da ilha de São Luís.



    Hoje, dia 4 de janeiro de 2017, percebo que fiquei um mês exato entregue ao “barato” de escrever sobre Gullar, 30 dias inteiros a contar de sua morte – tomado por meu texto quase como ele por seu poema. Um mês em que passei também como se em transe a falar sobre o poeta com quem, apesar de tudo, tenho afinidades e um curioso rol de coincidências. Como, por exemplo, o fato de ter trabalhado na redação do Diário de Notícias junto com o também poeta Lago Burnett, grande amigo de Gullar desde os tempos de juventude em São Luís. Lago e eu também nos tornamos bons amigos – longos papos sobre poesia e quejandos, não por acaso regados a queijos e cachaças da melhor qualidade numa queijaria ao lado do jornal, na Rua do Riachuelo – e senti muito quando soube de sua morte em São Luís, em 1995. Troquei email com Gullar na época, que se confessou arrasado: “éramos muito amigos, começamos a escrever juntos”.
      Já falei em crônicas anteriores de poemas de Gullar e meus, de tônica assemelhada: Guevara, Vietnam etc. O livro “Toda Poesia”, de 1980, comentado ao longo dessas crônicas, tem capa de meu amigo (e hoje vizinho aqui no prédio em Cataguases), o designer Dounê Spínola, que fizera antes a capa da primeira edição do Poema Sujo, de 1976 (da Civilização Brasileira, meu exemplar tem o nº 712) e, coincidência das coincidências, também de outros livros meus (Cataminas pomba & outros rios, de 2012), inclusive o Pomba Poema, de 1977.  Aliás, foi do Dounê a sugestão para fazermos a diagramação do Pomba Poema no formato horizontal – como fizera a Léa Caulliraux com o livro do Gullar –, o que o tornou ainda mais parecido, pelo menos graficamente, com o Poema sujo. Nessa primeira edição do poema, que tenho em minhas mãos, escreve Otto Maria Carpeaux: “Poema sujo mereceria ser chamado Poema nacional, porque encarna todas as experiências, vitórias, derrotas e esperanças da vida do homem brasileiro. É o Brasil mesmo, em versos ´sujos´ e, portanto, sinceros. Só nos resta sentir com Ferreira Gullar – fraternalmente”.

Polvilho, pedreira, palavras
    Ainda não sabia do Poema sujo, que seria lançado meses depois, quando em janeiro de 1976 me mudei para Itaipu, em Niterói. Certo domingo, numa praia das proximidades, Itacoatiara, comendo o indefectível biscoito de polvilho, meu distraído olhar desviou-se das ondas e fixou-se numa pedreira defronte, com inscrições que não conseguia identificar. Ita-ipu, Ita-coatiara, tudo pedra: polvilho, pedreira, palavras. Tudo remetia a Cataguases: o biscoito de polvilho da infância, as inscrições na velha pedreira: e já janeiro/ bate/ intensamente lá/ nas escarpas/de ita/ coatiara/ ali/ na areia/ frente ao mar/ o biscoito/ de polvilho estala/ na memória/ e sabe/ a padaria cabral/ ao pão quente/ do vitória/ nesse domingo/ azul de itaipu/ surgem são soam/ estranhas/ as palavras/ polvilhadas/ e s p a l h a d a s/ espelhadas/ na pedracoatiara/ remetem a/ itacat'agua'ses/ pomba/ pedra/ palavras grafadas/ a esmo no mesmo/ traço traçadas/ a seco no pó/ emaranhadas/ arranhadas/ na pedra/ no tempo/ esparso.
    Então, ao contrário do poema de Gullar, com seu início “vomitado”, mas que ficou como saiu, o meu surgiu “pelo meio” – um fragmento que só apareceria mais à frente no corpo do poema, deflagrado por aquele proustiano biscoito de polvilho, pura madeleine.  O poema foi tomando corpo aos poucos, mas eu ainda sem saber no que aquilo iria dar: surgia a cidade, a história, a minha história na cidade, a cidade dentro de mim. Até que, já com o poema em andamento, o livro do Gullar foi lançado e vi como parecia com o poema que eu estava fazendo (“o homem está na cidade como a cidade está no homem”). Muitas semelhanças, embora a motivação de meu poema, o que o conduziria a partir de certo ponto (ele acabaria focando o centenário de Cataguases, que se daria no ano seguinte, 1977) não fosse bem a mesma: no Pomba Poema a história da cidade era vista/atravessada pelo rio Pomba, supostamente claro e clean na memória, não pelo rio Anil do Poema sujo, “solidário com a miséria, com a vida suja”, como diria depois Gullar, “apodrecido” em meio à gente humilde e “encardida” de São Luís): Ah, minha cidade suja/ de muita dor em voz baixa/ de vergonha que a família abafa/ em suas gavetas mais fundas/ de vestidos desbotados/ de camisas mal cerzidas/ de tanta gente humilhada.



   Como Gullar, também fiquei um longo tempo (talvez até mais que ele: quase ano e meio) “atravessado”, tomado por meu poema. E desde seu real início, logo depois do episódio da praia de Itacoatiara, só aproveitado mais à frente, foi um só pensar exclusivamente no poema, a exemplo do acontecido com Gullar: nesgas neblina manhã/ ainda agora/ o cheiro da maçã/ evocando a metrópole/ o mundo exterior extraído/ a cada odor & dentada// o mundo além da reta da saudade/ antes das indústrias o mundo/ atolado/ na ponte do sabiá/ há? não há?/ não sabíamos/ não sabemos/não soubemos/ nunca jamais/ estava ali o mundo/ antes do tempo e da ponte/ num repente/ na girândola/ do tempo/ manga/ jabuticaba/ abiu/ explodindo no dente/ mas o mar mar/ telando as pedras/ no meio da luz/ e dia memória.
    “Mas a poesia não existia ainda”, escreveria Gullar em determinado ponto de seu poema. Confesso que me assustei, pois essa ideia estava também em meu poema, quase da mesma forma, embora em outro contexto:
    Poema Sujo – Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade/ sob/ as sombras da guerra// Stalingrado resiste.// A cada nova manhã/ nas janelas nas esquinas na manchete dos jornais// Mas a poesia não existia ainda// (...) Muitos/ muitos dias há num dia só/...//coberto pela sombra quase pânica/ das árvores/ de galhos que subiam mudos/ como enigmas/ tudo parado/ feito uma noite verde ou vegetal/ e de água/ muito embora em cima das árvores/ por cima/ lá no alto/ revelando seu costado luminoso nas folhas/ passasse o dia (o século XX).// (...)  muitos são os dias num só dia/ fácil de entender/ mas difícil de penetrar.
   Pomba Poema – ainda não existia a poesia/ ou antes/ estava/ toda ali/ roubando pães na rua/ do sobe‐e‐desce/ anunciando a manhã/ como o leite/ escorrendo/ circunspecta/ pelo relógio/ imenso/ entrevisto pelas frestas/ da casa e do tempo/ onde laura do carmo/ ensaiava acordes para o jazz‐band/ o violino mesclado/ aos cascos da manhã/a poesia/ nas árvores/ pendurada/ nos galhos/ não no papel/ impressa/ opressa/mas saltando livre/ sem pressa/ escorrendo das folhas/ como gerânios/ se debruçando/ explodindo/ em arco/ sobre o rio/ sangrando suada/ veloz singrando/ num só arremesso/ singrando/ como bola de pano/ estava ali/a poesia/ antes/ da poesia.
    Também o sexo se assemelhava na noite, nas ruas, a céu aberto. Meio descritivo, no Poema sujo (de prosa), como no primeiro modernismo; paradoxalmente entrecortado por enjambements com menções aos poetas concretos em Pomba Poema.
      Poema sujo – A noite adormece as galinhas/ e põe a funcionar os cinemas/ aciona/ os programas de rádio, provoca/ discussões à mesa do jantar, excessos/ entre jovens que se beijam e se esfregam/ junto à cancela/ no escuro// Como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada fraca,/ o perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno.// E todos buscavam/ num sorriso num gesto/ nas conversas da esquina/ no coito em pé na calçada escura do Quartel/ no adultério/ no roubo/ a decifração do enigma/ – Que faço entre coisas?/ – De que me defendo?
    Pomba Poema – era engraçado/ o sexo/ engraxado por brancos jatos/ lubrificado/ por amplos amplexos/ curtos‐tardos/ despojados/ longos‐lentos/ soltos a cada momento/ despejados/ no negro sexo de jânio quadros/ negra jânio viva negra vulva/ noite exímia/ preta preta/ pretíssimas/ retas augustas/ em M fortuitas suas coxas/ fartas sujas concretas pignatrizes/ as cujas crespas carnudas cornucópias/ duro penhor desce o pignatário piche puro pendor/ torpor anteparando paus pernas espermas/ vorazes varando sexos afoitos/ campos adubados induzindo/ ao infinito conduzindo/ em M despertam suas pernas/ enroscadas no infinito/ em 8 pós‐coito o torto corpo.
    Ou ainda a metáfora do tanque a “jorrar manhã” de Gullar e a minha do leiteiro também a “jorrar a manhã”.

    Poema sujo – quando a gente acorda cedo e fica/ deitado assuntando/ o processo do amanhecer:/ os primeiros passos na rua/ os primeiros/ ruídos na cozinha/ até que de galo em galo/ um galo/ rente a nós/ explode/ (no quintal)/ e a torneira do tanque de lavar roupas/ desanda a jorrar manhã.
   Pomba Poema – tal/ vez que agora é finda a missa/ o leiteiro jorra a manhã em cada porta/ lavada a alma/ – torta?/ descemos em bando famintos da pá‐virada moleques/ a inaugurar o domingo/ sobe‐e‐desce afora/ é quando/ mais belo se faz o pão nas janelas/ pescado/ triturado/ a cada dentada/ esquentando o vazio/ entre a alma e o nada/ era deixado o jornal/ como prêmio/ mas esse não interessa/ estava longe o grêmio/ a palavra impressa.
  E ainda o sobe-desce das ruas, os olhares estrangeiros pelas janelas: São Luís de Cataguases?
     Poema sujo – Descendo ou subindo a rua,/ mesmo que vás a pé,/ verás que as casas são praticamente as mesmas/ mas na janelas / surgem rostos desconhecidos/como num sonho mau.
    Pomba Poema – Descendo/ a rua/ do/ sobe/ e/ desce/ pressinto/cabreiro/ com horror/ que estou/ numa cidade do exterior/ mineiro// que passo é esse apressado?/ que luz é essa amarela?/ quando quem o quê como por quê?/de quem são esses olhos/ quem por trás da janela?
Ainda em Buenos Aires, de maio a julho de 1975, Gullar debruçou-se sobre seu poema de forma frenética, como se tomado por uma força estranha. Ríamos, é certo,/ em torno da mesa de aniversário coberta de pastilhas/ de hortelã enroladas em papel de seda colorido,/ ríamos, sim,/ mas/ era como se nenhum afeto valesse/ como se não tivesse sentido rir/ numa cidade tão pequena. De repente, a fonte secou. Não saía mais nada, mas ele sentia que o poema não estava terminado. Como já disse numa das crônicas anteriores, só em setembro, já angustiado, Gullar lembrou-se de um livro de Lênin, que lera quando estava no Chile, onde havia uma citação de Hegel: “a árvore está no ramo da árvore”. A partir desse conceito, de uma coisa estar em outra, o poeta finalmente consegue terminar seu livro em outubro daquele ano, com dicção e octossílabos a lá João Cabral de Melo Neto:
O homem não está na cidade/ como uma árvore num livro// (...) a cidade está no homem/ quase como a árvore voa/ no pássaro que a deixa// cada coisa está em outra/ de sua própria maneira/ e de maneira distinta/ de como está em si mesma// a cidade não está no homem/ do mesmo modo que em suas/ quitandas praças e ruas.
      No livro “Sobre arte, sobre poesia”, publicado em 2006, dizia Gullar: “Sou um poeta do Nordeste brasileiro, um poeta do Maranhão, da cidade de São Luís do Maranhão. Sou um poeta da rua do Coqueiro, da rua dos Afogados, da quinta dos Medeiros, do Caga-Osso, da rua do Sol e da praia do Caju. Um poeta da casa do quitandeiro Newton Ferreira, da casa de dona Zizi, irmão de Dodô e de Adi, de Newton, de Nelson, de Alzirinha, de Concita, de Norma, de Leda, de Consuelo, amigo de Esmagado e de Espírito da Garagem de Bosta.  Um foragido e um sobrevivente. Alguém que conseguiu escapar do anonimato, que vem do sofrimento interior, da tragédia cotidiana e obscura que se desenrola sob os tetos de minha pátria, abafada em soluços; a tragédia da vida-nada, da vida-ninguém. Se algum sentido tem o que escrevo, é dar voz a esse mundo sem história”.



    Dar voz a esse mundo sem história foi uma das proezas do poeta Ferreira Gullar.

2 de jan de 2017

Rota: Fellini




CENA 1

que música assim lontana e dolce
que fontana que veio de vita
afoito e em meio de mim me toma
e me inunda dessa melodia
que assoma e se assume plena
e me assombra e surge assim
e salta de um cinema
e enfim me acalma
e me leva-e-traz malabarista
de azares muitos
e poucos malabares?

noctâmbulo artista suspenso
em fio frágil e saltimbanco
no derradeiro arco de um vôo
imenso e sem louvor
de um salto em branco
de vadio desequilibrista
no picadeiro vazio e sem fervor
de vida esta dolce lontana vita
que oscila e vibra nessa melodia
que de novo flui e vem de muito antes
e me preenche e me traz
descoloridos semblantes
caras e doloridas faces
vagos disfarces visões
de vida dolce vita e malencolia
que noite-dia se formam
e me confortam
e me transportam
e me transformam

em passado-presente e magia
e miragens de entes perdidos
elos de um tempo semi-escondido
de amigas-amigos e amadas
e mal-amadas belas
belas estrelas belas donas
em seu andor em sua pose
e langor que às escuras seduz
em meio a unguentos em close
e serenos planos plenos de luz

mas sem sinecura sem beladona
que me cure da beleza
impura da dura trama que me rende
e sai desse mergulho de câmera
e me atrai e prende
a fragmentos de fotogramas
restos de rostos remontados

essa aquela imagem que faísca
no escuro e se cristaliza
no clarão da tela

                                            
                                                   giulietta 
                                       magali 
                                                 caterina 
                                                             cardinale 
                                                                            milo 
                                               anouk 
                                                       amada 
                                                                 anita 
                                              anitona 



CENA 2


tudo que em mim criança
e circo e clowns e dança
tudo que em mim convida

para a festa da vida
e roda roda-rota
rota-rota de acordes

tudo que me recorde
tutto che me a m’arcord
ch’è una festa la vita

os pés sujos de infância
têm-pó e água límpida
as mãos sujas de dolce

 vita em meio: estrada
rota-receio-ponte
de vida e vitelloni

alegria que dança
tutto tutto que em mim
 rimini-relembrança

minas não mais oprime
tudo que em mim menino
rota-rito-fellini


Ronaldo Werneck

Cataguases, março de 2001

26 de dez de 2016

GULLAR ANTE(S) (D)O ESPANTO - 4

Por você por mim   

           
            “Consumiste o dia numa sala fechada,/ lidando com papéis e números./ Telefonaste e escreveste,/ irritações e simpatias surgiram e desapareceram/ no fluir dessas horas. E caminhas,/ agora, vazio,/ como se nada acontecera.// (...) Tua casa está ali. A janela/ acesa no terceiro andar. As crianças/ ainda não dormiram./ Terá o mundo de ser para eles/ este logro? Não será/ teu dever mudá-lo?// Apertas o botão da cigarra./ Amanhã ainda não será outro dia”.  Neste poema, “Volta para casa”, Ferreira Gullar parece render homenagem a um de seus poetas preferidos, Carlos Drummond de Andrade. Há nele toda uma dicção dummondiana e, ao mesmo tempo, toda uma preocupação com as andanças e esquivanças do mundo.
            Em 1967, a morte de Ernesto Che Guevara me levou a um poema escrito no calor da hora (e que sairia na capa do SLD, o Suplemento Literatura Difusão que eu editava com o poeta Joaquim Branco), como se vê por esses fragmentos: “à morte azul-/ piscina/ frouxa colcha de retalhos/ surge súbita/ a pré-fabricada/ nas oficinas/ da américa latina/ das oficinas da américa/ das oficinas de sombra e medo/ suja morte em selva vida/ lidalívida lediviva/ la muerte sem arcanjos/ sujo de selva/ e sangue/ fora do encantamento/ o corpo-roto/ de selva & sangue/ o mito-morto/em higueras, os andes vulcânicos/ a morte risco na vida/ meridiano da sorte// de selva e sangue/ faz-se o mito-morto/ de selva e sangue/ tão junto da verdade/como o sangue do corpo/o céu avermelha/sol & selva/ el cielo rojo de higueras/ torna rubra a pálida face/ do herói tombado/y el cielo baja/rojo de espanto/ sobre mi caballero”.
Muitos outros poetas também escreveram sobre a morte de Guevara. Poucos com a força das palavras de Gullar, sua emocionante e épica narrativa: “Em Buenos Aires há sol/ nas alamedas arborizadas, um general maquina um golpe./ Uma família festeja bodas de prata num trem que se aproxima/ de Montevidéu. À beira da estrada/ muge um boi da Swift. A Bolsa/ no Rio fecha em alta/ ou baixa./ Inti Peredo, Benigno, Urbano, Eustáquio, Nato/ castigam o avanço/ dos rangers./ Urbano tomba/ Eustáquio,/ Che Guevara sustenta/ o fogo, uma rajada o atinge, atira ainda, solve-se-lhe/ o joelho, no espanto/ os companheiros voltam/ para apanhá-lo. É tarde. Fogem./ A noite veloz se fecha sobre o rosto dos mortos”.
“(...) Não está morto, só ferido./ Num helicóptero ianque/ é levado para Higuera/ onde a morte o espera/ Não morrerá das feridas/ ganhas a céu no combate/ mas de mão assassina/;que o abate./ Não morrerá das feridas/ ganhas a céu aberto/ mas de um golpe escondido/ ao nascer do dia// Assim o levam pra morte/ (sujo de terra e de sangue)/ subjugado no bojo/ de um helicóptero ianque// É o seu último voo/ sobre a América Latina/ sob o fulgor das estrelas/ que nada sabem dos homens// que nada sabem do sonho,/ da esperança, da alegria,/ da luta surda do homem/ pela flor de cada dia”.
“(...) Súbito vimos ao mundo/ e nos chamamos Ernesto/ Súbito vimos ao mundo/ e estamos/ na América Latina/ Mas a vida onde está/ nos perguntamos/Nas tavernas?/ nas eternas/ tardes tardas?/ nas favelas/ onde a história fede a merda?/ no cinema?/ na fêmea caverna de sonhos/ e de urina?/ ou na ingrata/ faina do poema? /(...) A vida muda como a cor dos frutos/ lentamente/ e para sempre/ A vida muda como a flor em fruto/ velozmente/ A vida muda como a água em folhas/ o sonho em luz elétrica/ a rosa desembrulha do carbono/ o pássaro da boca/ mas/ quando for tempo/ E é tempo todo tempo/ mas/ não basta um século para fazer a pétala/ que um só minuto faz/ ou não/ mas/ a vida muda/ a vida muda o morto em multidão”.

Na Gávea, no Vietnam  

     Em 1968 comecei a namorar uma portuguesinha – “bela, recatada & etc” – que morava na Gávea e estudava na escola mais famosa do bairro, o Colégio Estadual André Maurois. Dirigido por Dona Henriette Amado, o André Maurois adotava o lema Liberdade com Responsabilidade como princípio de educação, tendo por base a prática da escola de Summerhill, na Suíça, a primeira democracia infantil do mundo. Dona Henriette acreditava que Summerhill seria um ponto de partida para uma educação que formasse pessoas seguras, onde houvesse uma verdadeira troca de experiências entre alunos e professores. 
    Pois foi ali no André Maurois, numa tarde do segundo semestre de 1968, que vi minha portuguesinha em cena. Mamãe portuguesa era bravíssima e na época só nos era permitido encontros vespertinos. Às vezes conseguíamos pegar um cineminha no Leblon, mas escondidos, mãos tímidas se encontrando no claro/escuro. Anos depois, ela sairia seminua na Revista Ele/Ela e logo seu nome estaria em letras garrafais nas fachadas dos cinemas, já que ficara famosa, imagina!, como atriz de pornochanchadas. Pois é, acontece. Então, para minha surpresa, minha tímida portuguesinha estava ali em cena, no palco do Colégio, e atuava ao lado de vários colegas na montagem de “Por Você Por Mim” (logo depois, aqueles rapazes e moças encenariam a peça também no Teatro Opinião), o belo-terrível poema de Ferreira Gullar sobre a Guerra do Vietnam, que eu acabara de ler/reler. O poema fora publicado naquele mesmo ano, e saíra num livro fino, de corte vertical, muito bem diagramado, com fantásticas fotos solarizadas das batalhas no Sudeste Asiático – livro que anda há tempos sumido entre os muitos de minha biblioteca.  
    Minha portuguesinha me dissera somente que ela e seus colegas iriam fazer a apresentação de um poema, e como eu era (era?) “o seu poeta”, deveria gostar. Ao ver que era o poema de que tanto gostava, e muito bem apresentado por aqueles “meninos e meninas” (eu já me considerava um velho de quase 25 anos frente aos 16, 17 anos dos jovens “atores”) me emocionei de vez, como me emocionara várias vezes nas várias leituras e releituras que já fizera do poema de Gullar. O mesmo poema que reencontro agora, nesta edição do “Toda Poesia”, com várias e antigas marcações feitas por mim. E que acabo de gravar em vídeo que se encontra em meu canal do youtube. 



     Em 1968, com a escalada americana no Sudeste Asiático, o Vietnam nos chegava pelo telstar, escorria sangue pelo videotape e era manchete diária em todo o mundo. Também eu acabara de escrever um poema tendo a guerra como pano de fundo e que sairia em meu primeiro livro, “Selva Selvaggia”. O eu-lírico de meu poema Telstar estava na cama com sua amada enquanto a televisão exibia imagens sangrentas do Vietnam. A seguir, um fragmento de Telstar, que ganharia mais tarde o Prêmio Carlos Drummond de Andrade: “exclamo/ eu te amor/ tecendo/ o B-52/ lenta/ lentamente/ p e n e t r a/ mente/ lenta/ p e n e t r a/ lenta/ lentamente/ brilhuzindo/ no ventre da manhã/ não a clara/ ensolarada/ manhã de todos/ mas a rubra/ ensanguentada/ manhã/ de todos os B-52/ vagina/ entreabrir/ parir/ bull-pups/ púbis/ bulldozers/ parir/ phantoms/ napalm/ thunderchiefs/ lazy-dogs/ parir/ a manhã/ de todos/ os B-52/do vietnam”.
      Já o poema de Gullar, “Por Você Por Mim”, coincidentemente com temática parecida, e que só conheci depois que terminara o meu, abordava as atrocidades da guerra como uma surpresa que explodia em meio à coloquialidade do cotidiano, e daí vinha o impacto de sua força: “É dia feito em Botafogo/ Homens de pasta, paletó, camisa limpa,/dirigem-se para o trabalho./ (...)/ Nenhuma ameaça/ pesa sobre a cidade/ Os barulhos apitos baques rumores/ se decifram sem alarma. O avião no céu/ vai para São Paulo./ O avião no céu não é um Thunderchief da USAF/ que chega trazendo a morte/ como em Hanói./ Não é um Thunderchief da USAF que chega/ seguido de outros/ e outros/ da USAF/ carregados de bombas e foguetes/ como em Hanói/ que chega lançando bombas e foguetes/ como em Hanói/ como em Haiphong/ incendiando o porto/ destruindo as centrais elétricas”.
    “A noite, a noite, que se passa? diz/ que se passa, esta serpente vasta em convulsão, esta/ pantera lilás, de carne/ lilás, a noite, esta usina/ no ventre da floresta, no vale,/ sob lençóis de lama e acetileno, a aurora/ o relógio da aurora, batendo, batendo/ quebrado entre cabelos, entre músculos mortos, na podridão/ batendo/ Ah, como é difícil amanhecer em Thua Thien./ Mas amanhece. // (...)// As águas explodem como granadas, os arrozais/ se queimam em fósforo e sangue/ entre fuzis/ as crianças/ fogem dos jardins onde açucenas pulsam/ como bombas-relógios, os jasmineiros/ soltam gases, a máquina/ da primavera/ danificada/ não consegue sorrir.” 
     “(...) O Vietnam agora é uma vasta oficina da morte, nos campos/ da morte, o motor/ da vida gira ao contrário, não/ para sustentar a cor da íris,/ a tessitura da carne, gira/ ao contrário, a desfazer a vida, o maravilhoso aparelho/ do corpo, gira/ ao contrário das constelações, a vida/ ao contrário, dentro/ de blusas, de calças, dentro/ de rudes sapatos feitos de pano e palha, gira/ ao contrário a vida feita de morte”.  
      “(...) Surdo/ sistema de álcool, gira/ gira, apaga rostos, mãos,/ esta mão jovem/ que sabia ajudar o arroz, tecer a palha. Há mortos/ demais, há mortes/ demais, coisas da infância, a hortelã, os sustos/ do amor, aquela tarde aquela tarde clara, amada/ aquela tarde clara tudo/ tudo se dissolve nas águas marrons/ e entre nenúfares e limos/ a correnteza arrasta para o mar o mar o mar azul”.  
      “(...) Próximo à base de Da Nang/ que tudo escuta e tudo vê,/ próximo à base de Da Nang, esgueira-se/ entre árvores um homem,/ próximo à base cheia de soldados,/ metralhadoras, bombas,/ aviões, cheia/ de ouvidos e de olhos/ eletrônicos, um homem, chamado Tram/ entre as folhas e os troncos que cheiram a noite,/ cauteloso se move/ entre as folhas da noite, Tram Van Dam,/ cautelo se move/ entre as flores da morte/ Tram Van Dam/ quinze anos se move/ entre as águas da noite/ dentro da lama/ onde bate a aurora/ Tram Van Dam/ onde bate a aurora/ Tram Van Dam/ com sua granada/ entre cercas de arame/ entre as minas no chão/ Tram Van Dam/ com o seu coração/ Tram Van Dam/ onde bate a aurora/ por você por mim/ sob o fogo inimigo/ com o grampo no dente/ com o braço no ar/ por você por mim/ Tram Van Dam/ onde bate a aurora/ por você por mim/ no Vietnam”. 
      Pois não é que até hoje, até mesmo agora, ao digitar esses trechos do poema, ao sentir o ritmo incessantemente marcante dessa sequência de “Tram Van Dans”, me comovo quase às lágrimas? 
Continua na próxima semana





23 de dez de 2016

GULLAR ANTE(S) (D)O ESPANTO - 3

O prazer do poema




Em seu poema “Uma voz”, diz Ferreira Gullar: “Sua voz quando ela canta/ me lembra um pássaro mas/ não um pássaro cantando/ lembra um pássaro voando”. O belo é uma alegria eterna – digo eu, numa tradução apressada do verso famoso de John Keats (1795-1821): a thing of beauty is a joy forever. Em “O prazer do poema”, antologia lançada em 2014, Gullar desfila todo um rol de poetas e poemas, daqui e dacolá, que o fascinaram ao longo da vida. Na introdução, ele escreve: “o propósito declarado é oferecer o poema como puro prazer de leitura e deslumbramento”. E cita o verso de Keats numa tradução literal, prosaica, um pouco mais apressada que a minha, sem preservar o ritmo e a métrica do poeta inglês: “uma coisa bela é uma alegria para sempre”. E afirma ainda: “todo poema só cumpre sua função quando a sua leitura resulta em prazer estético”.
 Prazer estético é sem dúvida o que me proporciona o seu poema “Uma voz”. Um poema “mais-que-perfeito”, com a surpresa, o inesperado dessa voz que lembra a beleza de um pássaro voando. Ritmado em redondilha maior, o poema pertence ao livro “Dentro da Noite Veloz” (1962/1975) e é dedicado à grande cantora lírica Maria Lúcia Godoy. Tendo entre seus “fãs de carteirinha” ninguém menos que o então presidente Juscelino Kubitschek, a soprano mineira Maria Lúcia ostenta – entre suas muitas glórias – a proeza de ser “a voz que deu voz” da melhor forma à Bachiana nº 5 de Villa-Lobos. Convidada especial de Juscelino, era dela a “voz maviosa” que se ouviu no Planalto Central em 1960, quando da inauguração de Brasília.
“La Godoy” – como sempre a chamei, brincando/reverenciando –, minha amiga Maria Lúcia, que não vejo há tempos, sempre se recorda com grande orgulho do belo poema que Gullar lhe dedicou. Ela ia dizer – para minha grande honra – alguns dos poemas de meu livro mais recente, “o mar de outrora & poemas de agora”, quando do lançamento em Belo Horizonte, em 2014, mas não pôde ir devido a uma forte gripe. De lá pra cá não mais nos vimos, mas soube que “La Godoy” recebeu em setembro último, do alto de seus 92 anos, o título de Doutor Honoris Causa da UFMG. Mais que merecido.
Mas o papo é sobre Gullar. Então, vamos lá. Com rima & tudo. Numa tarde de 1980 fui até a Biblioteca do Banco do Brasil (hoje no CCBB/Rio), então localizada no mesmo prédio da Av. Presidente Vargas onde eu era um dos redatores da Revista Cacex. Passava sempre por lá, para alguma pesquisa e também para papear com meu amigo, o poeta e hoje grande e irreverente sonetista Glauco Mattoso – então editor do ousado e abusado “Jornal Dobrasil” –, que lá trabalhava e ainda não fora totalmente tomado pelo glaucoma (daí seu pseudônimo) que o cegaria poucos anos depois. Glauco perguntou se eu ia ao lançamento do livro do Gullar, numa livraria das proximidades. Não sabia, mas logo combinamos de ir juntos.
“O anjo é grave/ agora./ Começo a esperar a morte”.// (...) “Onde jorrara a fonte, jorrara/ a fome. Onde jorrara/ a morte, jorrara/ a fonte. Aqui/ jorrara a fonte”.// O livro que estava sendo lançado era a reunião de poemas de Gullar, “Toda Poesia”, um abrangente balanço de sua obra poética até então, que abria com um prefácio altamente elogioso de Sérgio Buarque de Hollanda: “De Ferreira Gullar pôde escrever Vinicius de Moraes que é o último grande poeta brasileiro. Parece-me a mim, além disso, que, exceção de algumas peças de Mário de Andrade e também de Carlos Drummond de Andrade (mormente em Rosa do povo), é o nosso único poeta maior dos tempos de hoje”. (...) “Para a singularidade e a importância de sua contribuição, só encontro comparável, no Brasil, a prosa de Guimarães Rosa”.
Tenho aqui em minha mesa o “Toda Poesia”, devidamente autografado por Gullar, com grande parte de seus poemas marcados, os mesmos que anteriormente já grifara em suas primeiras publicações, que possuo ainda hoje – de A Luta Corporal (1954) ao Na Vertigem do Dia (1975-1980). Hábito antigo esse meu, de destacar as pedras-de-toque dos poemas/textos de que gosto, ou que julgo importantes, e que conservo ainda agora. Aquelas palavras-chave – highlights, punti luminosi – que saltam de sua poética: tempo, tarde, bananas (podres, quase sempre): “Naquele canto/ em sombra/ da quitanda/ a tarde – o tempo/ o sol da tarde/ nas bananas virava mel/ (aliás/ mais água/ do que mel)/ na boca/ de Newton Ferreira/ a mesma/ tarde (de fachadas/ e espelhos)/ falava português/ e ria/ (na saliva)/ ou talvez/ não/ mas sem dúvida alguma/ se esvaía”.
A tarde, o mar, a morte
A tarde, aquela tarde que se fixa numa “fotografia aérea”, de certa forma antecipadora da atmosfera coloquial do Poema Sujo: “Eu devo ter ouvido aquela tarde/ um avião passar sobre a cidade/ aberta como a palma da mão/ entre palmeiras/ e mangues/ vazando no mar o sangue de seus rios/ as horas/ do dia tropical/ aquela tarde vazando seus esgotos seus mortos/ no jardim/ eu devo ter ouvido/ aquela tarde/ em meu quarto/ na sala/ no terraço/ ao lado do quintal?/ o avião passar sobre a cidade/ geograficamente/ desdobrada”.// “(...) o ronco do motor enquanto lia/ e ouvia/ a conversa da família na varanda/ dentro daquela tarde/ que era clara/ e para sempre perdida// “(...) meu rosto agora/ sobrevoa/ sem barulho/ essa fotografia aérea./ Aqui está/ num papel/ a cidade que houve/ (e não me ouve)/ com suas águas e seus mangues/ aqui está/ (no papel)/ uma tarde que houve/ com suas ruas e casas/ uma tarde/ com seus espelhos/ e vozes (voadas/ na poeira)/ uma tarde que houve numa cidade/ aqui está/ no papel que (se quisermos) podemos rasgar”.
Ou o mar, o mar ainda. O mar de sempre, recorrente em Gullar. Mar sem rima: “Vê o céu. Mais/ que azul, ele é o nosso/ sucessivo morrer. Ácido/ céu”.// “(...) Despreza o mar acessível/ que nas praias se entrega, e/ o das galeras de susto; despreza o mar/ que amas, e só assim, terás/ o exato inviolável/ mar autêntico!// (...) Eu ouço o mar; sopro, caminho na folhagem./ Mirar-nos límpidos no susto das águas escondidas!,/ a alegria debaixo das palavras”// (...) o mar buzina/ voz de ostra garganta dos séculos fósseis/ corneta perdida/ o que nos diz essa voz de cal?// (...) Beleza oh pura pura/ o que te ofereço? O auriverde pendão da minha terra?”.
A tarde e o mar (l´éternité de Rimbaud, quem sabe?) se reencontram nesse pungente poema que bate “no clarão da lembrança” (não por acaso tem a “Memória” como título) e que passo a vocês, intacto:  “menino no capinzal/ caminha/ nesta tarde e em outra / havida// Entre aurora e mata-pastos/ vai, pisa/ nas ervas mortas ontem/ e vivas hoje/ e revividas no clarão da lembrança// E há qualquer coisa azul que o ilumina/ e que não vem do céu, e se não vem do chão, vem/ decerto do mar batendo noutra tarde/ e no meu corpo agora/ – um mar defunto que se acende na carne/ como noutras vezes se acende o sabor/ de um fruta/ ou a suja luz dos perfumes da vida/ ah vida!”.
Num dos poemas de “Dentro da noite veloz”, publicado em 1975, Gullar como que previa o decorrer de sua morte: “Se morro/ o universo se apaga como se apagam/ as coisas deste quarto/ se apago a lâmpada:/ os sapatos-da-ásia, as camisas/ e guerras na cadeira, o paletó-/ dos-andes,/ bilhões de quatrilhões de seres/ e de sóis/ morrem comigo.// Ou não:/ o sol voltará a marcar/ este mesmo ponto do assoalho/ onde esteve meu pé;/ deste quarto/ ouvirás o barulho dos ônibus na rua;/ uma nova cidade/ surgirá de dentro desta/ como a árvore da árvore. // Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens/ a mesma história que eu leio, comovido”.
 Ao que parece, este poema foi feito depois, ou logo depois, do Poema Sujo, e traz embutido um conceito (“árvore dentro da árvore”) que Gullar foi buscar numa leitura que fez, ainda no Chile, de um livro de Lenin. Isso antes do surgimento do Poema Sujo, que aconteceu em Buenos Aires. Ao comentar sobre a feitura de seu longo poema, na gravação que fez em 2015 no Instituto Moreira Salles, Gullar lembrou-se do livro de Lenin e de quando este citava Hegel, quando o filósofo alemão abordava a relação entre particular e universal, dizendo que “a árvore está no ramo da árvore”.
     E Gullar só foi entender o significado disso mais tarde, já na Argentina. E acabou, em setembro de 1975, partindo do conceito para elaborar o fecho (que estava “travado” há quase um mês) do Poema Sujo, que foi escrito entre os meses de maio e outubro daquele ano: “O homem está na cidade/ como uma coisa está em outra/ (...)/ mas variados são os modos/ como uma coisa/ está em outra coisa/ o homem, por exemplo, não está na cidade/ como uma árvore está/ em qualquer outra/ nem como uma árvore/ está em qualquer uma de suas folhas”. Interessante ainda nos lembrarmos que, vinte anos antes de saber da “árvore hegeliana”, Gullar já registrava a palavra árvore solta de seu significado árvore, a palavra em plena autonomia, “árvore-árvore”, como no famoso poema concreto dos anos 1950:
árvore

árvore
árvore
árvore


Contexto histórico
            Poemas de participação social, de um pensar sobre o mundo, de um situar-se no “contexto histórico”, como se dizia na época, permeiam “Toda Poesia”, toda a vida: “Não se trata do poema e sim do homem/ e sua vida//(...) // Não se trata do poema e sim da fome/ de vida,/ o sôfrego pulsar entre constelações/ e embrulhos, entre engulhos./ Alguns viajam/ vão/ a Nova York, a Santiago/ do Chile. Outros ficam/ mesmo na Rua da Alfândega, detrás/ de balcões e guichês./ Todos te buscam, facho/de vida, escuro e claro”.// “(...) Vista do alto,/ com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade/ é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém./ Mas vista/ de perto/ revela o seu túrbido presente, sua/ carnadura de pânico; as/ pessoas que vão e veem// (...) // São pessoas que passam sem falar/ e estão cheias de vozes/ e ruínas. És Antônio?/ És Francisco? És Mariana?/ Onde escondeste o verde/ clarão dos dias/ Onde/ escondeste a vida/ que em teu olhar se apaga mal se acende?// (...) Mas, dentro, no coração, eu sei,/ a vida bate./ Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi,/ sob as penas da lei,/ em teu pulso,/ a vida bate./ E é essa clandestina esperança/ misturada ao sal do mar/ que me sustenta/ esta tarde/ debruçada à janela de meu quarto em Ipanema/ na América Latina.
Ou ainda, nesse outro poema-constatação: “Onde está/ a poesia? Indaga-se/ por toda a parte. E a poesia/ vai à esquina comprar jornal.// Cientistas esquartejam Púchkin e Baudelaire./ Exegetas desmontam a máquina da linguagem./ A poesia ri.// (...) Poesia – dever a vida com palavras?/ Não – libertá-las,/ fazê-la voz e fogo em nossa voz. Po-/ esia – falar/ o dia/ acendê-lo do pó/ abri-lo/ como carne em cada sílaba, de-/ flagrá-lo/ como bala em cada não/ como arma em cada mão// E súbito da calçada sobe/ e explode/ junto ao meu rosto do pás-/ saro? O pás-/ Como chamá-lo? Pombo? Prombo? Como?/ Ele/ bicava o chão há pouco/ era um pombo mas/ súbito explode/ em ajas brulhos zules bulha zalas/ e foge!/ como chamá-lo? Pombo? Não:/ poesia/ paixão/ revolução”.
“O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,/ relógio de lilases, concretismo/ neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,/ que a vida/ eu a compro à vista aos donos do mundo./ Ao peso dos impostos, o verso sufoca,/ a poesia agora responde a inquérito policial militar.//Digo adeus à ilusão/ mas não ao mundo. Mas não à vida,/ meu reduto e meu reino./ Do salário injusto,/ da punição injusta, /da humilhação, da tortura, /do terror,/ retiramos algo e com ele construímos um artefato/ um poema/ uma bandeira”.


Continua na próxima semana

19 de dez de 2016

Feliz, Tumati é quem toca

      
Na próxima quarta-feira, 21 de dezembro de 2016, a partir de 19:30h, o Projeto Feliz é quem Toca coroa suas atividades deste ano com uma grande festa no PINA - Ponto de Integração das Artes, o antigo CTM, localizado no bairro Guanabara. Haverá apresentação de ritmos com os alunos de Capoeira, espetáculo de improviso com os alunos de Teatro e show da Banda Feliz é quem Toca, com os alunos de Percussão. Após as apresentações dos alunos haverá a exibição de dois filmes curta-metragem (com uma duração total de 25 minutos), ganhadores do Edital Regional do Projeto Usina Criativa de Cinema Polo Audiovisual da Zona da Mata: “Olhos de Vô”, ficção, de Marco Andrade; e “O Universo de Manoel”, animação, do Coletivo PIA, ambos de Cataguases.
Tudo começou na Cataguases de 1997, com a Banda Feliz é Quem Toca, que ensaiava no Anfiteatro Ivan Müller Botelho sob a batuta de Rogério Tumati. Na virada do século, com a criação do projeto Café com Pão Arte ConFusão, um dos braços do CTM,  a Banda – formada por crianças e jovens – passou a fazer parte do “Núcleo de Percussão”, que tinha como responsável Rogério Tumati.
Quando o CTM encerrou suas atividades em Cataguases, no final de 2012, o professor Tumati viu-se diante de um dilema: o que fazer com aquele mundo de meninos e com o mundo daqueles meninos que assistiam e participavam com grande interesse das aulas que administrava? Por CTM, leia-se Centro das Tradições Mineiras; por Tumati, leia-se o professor de percussão, músico de sete instrumentos, cantor, técnico de som e pau pra toda obra no campo das artes (e também fora dele) Rogério Mendonça.
O que fazer então com a esperança daqueles meninos – a maioria do Bairro Guanabara, na periferia da cidade –, o que fazer para que não se perdesse o brilho que ele via em cada um de seus olhares quando chegavam a cada dia para as aulas? Tumati não titubeou nem por um momento: dispôs-se logo a levar parte deles para que continuassem frequentando as aulas, agora no quintal de sua própria casa, num bairro das proximidades, onde criou o projeto “Casa do Tumati”. O quintal passou a ser um mundo de possibilidades percussivas.
Mas logo o quintal mostrou-se bem menor que o mundo, o mundo de meninos que procuravam suas aulas. Foi preciso encontrar outro lugar, que logo surgiu quando de uma oferta da Igreja Metodista, para onde ele se transferiu com seus pequenos percussionistas. Ali, os meninos passaram também a receber aulas de teatro, sob a orientação da professora Miriam Gaspar. E o Projeto como um todo assumiu o nome inicial da banda, passando a chamar-se Feliz é Quem Toca.
Em 2014, o Feliz é Quem Toca foi contemplado com o incentivo da Lei Municipal de Cultura Ascânio Lopes, o que possibilitou três apresentações do grupo, com estrutura de palco, luz e acompanhamento de banda. Ainda naquele ano as aulas de percussão do Projeto transferiram-se para o PINA-Ponto de Integração das Artes, voltando ao Bairro Guanabara, no mesmo prédio do antigo CTM, com a cessão do local pela Agência de Desenvolvimento do Audiovisual da Zona da Mata Mineira, atual gestora do espaço.

Agora, com o seu fortalecimento, diante de sua aprovação pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura – com o patrocínio das empresas Bauminas Química, Bauminas Mineração e Hidroazul –, o Projeto retoma suas atividades em Cataguases com força total. E, desde setembro, passou a oferecer aulas gratuitas de Percussão, gratuitas de Percussão, Teatro e Capoeira. Aulas que acontecem no PINA e na Casa de Cultura Simão, na Av. Astolfo Dutra.
Dispensável dizer que o Tumati está totalmente “tocado” pelo sucesso do Projeto e que o vai tocando feliz e com toda a força de suas baquetas. Os meninos? O que dizer dos meninos? É só ver o som de seus tambores enchendo de alegria e pertencimento o Bairro Guanabara. Um som da pesada que, sem controvérsias, e por mais paradoxal que seja, traz enorme descanso ao coração de seus pais.

O Projeto Feliz é quem Toca já tem em preparo várias novidades para 2017. Suas atividades podem ser acompanhadas pelo site (www.felizequemtoca.com.br) e pelo facebook (www.facebook.com/felizequemtoca).