8 de set de 2017

O POETA, ESSE REFUGIADO - Ronaldo Werneck


“De frio e fome/ cobertos apenas pela chuva/ eles morrem às dezenas,/ vindos do país do nada/ para o nada caminhando” – escreve Joaquim Branco na abertura de seu poema “Refugiados”, que dá título a esse novo e belo livro do poeta cataguasense. Não foi à toa que Platão expulsou os poetas da República, deixou-os fora do Banquete. Quando conscientes, poetas são perigosos. Poetas apontam o caos do cotidiano. Poetas são refugiados do sistema. Poetas são refugiados até mesmo da literatura.
E refugiados podem um dia insurgir, recusar, rebelar-se contra as injustiças: “Caminham em paralelas/ para o infinito ou para a morte/ sobre os trilhos que os libertem/ da difícil batalha contra a sorte". Exatamente como fazem os poetas da recusa, antenados com o mundo à sua volta. Não só com poemas participantes, de protesto, como com aqueles outros, os poemas visionários, antecipadores, que vão de encontro à arte tradicional. Nada mais são que também refugiados esses poetas que fabricam seus poemas de recusa.
“Braço que acusa o acaso”, escreveu Augusto de Campos em sua elegia para o poeta Mário Faustino, o ´aeromorto´. O mesmo Augusto que nos diz em seu livro “Poesia da Recusa” (Ed. Perspectiva, 2006): “Em defesa de Mallarmé, afirmou Valéry, certa vez, que o trabalho severo, em literatura, se manifesta e se opera por meio de recusas. A melhor poesia que se praticou em nosso tempo passou por esse crivo. Da recusa estética (Mallarmé) à recusa ética (Tzvietáieva), se é que ambas não estão confundidas numa só, essa poesia, baluarte contra o fácil”.
E Augusto se estende em seu rol de recusas: “A maioria das pessoas quer o consolo do entretenimento, arte fácil e descartável para descansar a cabeça, ‘esquecer da vida’, e não para problematizar-se. O que quer, afinal, Mallarmé, com tantos enigmas? Conhecer-se. Romper os limites da linguagem para compreender e exprimir melhor as angústias humanas diante do enigma supremo da vida e da morte. Revitalizar a própria linguagem, dando-lhe um sentido mais puro”.
Exatamente o que quis e quer Joaquim Branco em seus longos anos de ofício literário. Nós nos conhecemos – melhor, nos aproximamos e começamos a trocar ideias e dar início à fabricação de nossos projetos literários – lá nos longes de uma Cataguases dos anos 1960. Uma amizade que se solidifica a cada minuto, que é também (evoé, Cassiano Ricardo!) “um século XX”, já devidamente extrapolada para este século XXI.
E conhecer o homem, o amigo Joaquim Branco, é conhecer um ser em toda a sua dignidade, um intelectual íntegro, é saber das “recusas” representadas por seus trabalhos – da qualidade, da coerência de sua obra que se perpetua em sua já longa trajetória. É saber de suas incursões pelos vários movimentos que foram surgindo – concretismo, práxis, poema processo, poema postal, poema visual – que demonstraram o poeta atento ao seu tempo.
E essa “curiosidade” – impressa na produção de poemas que remetem a esses movimentos, como os que se encontram em seu novo livro, com suas artesanias & artimanhas de expressiva visualidade – me faz lembrar as investidas do citado Cassiano: exatamente como o Joaquim de hoje, um poeta já de “longo curso”, que também participou ativamente dos movimentos da poesia concreta e da poesia práxis, antes de criar os seus linossignos.
“Refugiados” revela novíssimos poemas, grande parte escritos em 2017, e traz uma bela capa idealizada pela filha do poeta, Natália Tinoco – que imprimiu ótimo tratamento na foto dos refugiados, alguma coisa meio “flou”, impressionante, como se suas almas pairassem sobre eles. O livro demonstra mais uma vez a vitalidade de Joaquim Branco – a quase magia de perpassar pelos vários momentos atravessados pela vanguarda nas últimas décadas sem perder a autenticidade, sem se deixar levar por aqueles falsos criadores de meras cópias, de simples pastiches.
Esses poemas, como sempre tonificados por instigantes pedras-de-toque, têm sua marca, sua assinatura, essa dicção própria e sempre inovadora que há muito tempo me fascina.  Às vezes seus versos brancos e livres podem nos lembrar alguma coisa dos primórdios do modernismo, mas logo percebemos terem a chancela inconfundível dos versos “branco Joaquim”, articulados por harmônicos enjambements.
Em 1939, ao perder seu grande amigo, o poeta inglês W.H. Auden escreveu Funeral Blues, uma das mais belas elegias de todos os tempos, que ficou mais conhecida pelo filme “Quatro Casamentos e um Funeral”. Na ótima tradução de Nelson Ascher, transcrevo os dois derradeiros quartetos, e logo digo o porquê: “Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto/ viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,/ meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;/ quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.// É hora de apagar estrelas — são molestas —/ guardar a lua, desmontar o sol brilhante,/
de despejar o mar, jogar fora as florestas,/ pois nada mais há de dar certo doravante”.
E agora sim, o porquê da citação de Funeral Blues: em 2014, Joaquim Branco perde sua esposa e logo escreve uma também pungente elegia, “Folhas Caídas”, que se encontra nesse livro “Refugiados”. Ele parte da canção popular “Se essa rua fosse minha”, mas inverte o sentido satírico, parodístico, produzindo versos de extrema delicadeza, de intensa comoção. Um poema pautado pela perda, mas que não acena para “apagar estrelas” como o de Auden – antes sinaliza para o súbito acender de uma nova estrela, pelo ascender da amada que partiu. Termino com esse tocante poema de Joaquim Branco para Sonia Regina, comovido como da primeira vez que o li:


FOLHAS CAÍDAS

Na via-crucis desta rua
mora um anjo que se chama Sonidão.
Se eu pudesse eu mandava ladrilhar
seus passos para que ficassem
na terra que os viu passar.

Na via-láctea do sonho, uma estrela
no céu da tarde se fez
além de Órion
e vai brilhar pela primeira vez
no voo orbital do Sol.

Na via-férrea deste outono
– entre folhas caídas –
uma entre mil outras renasce,
como se o céu se abrisse
para não deixá-la cair
(injustamente)
para sempre
na impossibilidade
do não-ser.



Ronaldo Werneck
Cataguases, 09.08.17



“Refugiados”, de Joaquim Branco
Editora do Autor, 61 pp
Cataguases MG, 2017
R$ 20,00


4 de set de 2017

Pomba Poema 40 anos: poema & cine-poema




       pressinto
                 cabreiro
      com horror
                  que estou
numa cidade
   do exterior
                   mineiro

 

Nem sempre menos é mais. Com sua abertura num enjambement forjado em redondilha menor – que a cada verso (palavra, linha, linossigno?) torna-se ainda mais diminuto, despojado, opresso, e tem seu fecho com a métrica curta em “mineiro” – esse fragmento ficou como uma das pedras-de-toque de meu livro pomba poema, que acaba de fazer 40 anos de seu lançamento (Cataguases, 20 de agosto de 1977). Na província do interior que se quer “exterior”, muitas vezes menos é menos mesmo.

Vários críticos já apontaram em meus poemas uma “poética do olhar”. Muitos outros, ao analisarem a obra de Jean-Luc Godard diziam que o cineasta “escrevia com a câmera” (aliás, título do belo livro de meu amigo Mário Alves Coutinho: Jean-Luc Godard: Escrever com a Câmera). O que assinala as inevitáveis controvérsias ao dito bíblico: “No princípio era o verbo”. O verbo ou a imagem? Que a turma do maldizer me perdoe: não estou querendo me comparar com o Godard, imagina! Apenas, e muito pelo contrário, apontando “díspares afinidades” (se me permitem o oxímoro) nessa tomada de foco. Desde sua primeira edição pensava em filmar meu poema-livro, que já trazia naquela e em suas duas reedições/releituras uma série de imagens fotográficas, quase diria “de cinema”: “minas em mim e o mar esse trem azul”, de 1999; e “cataminas pomba & outros rios”, de 2012.
Pomba Poema mereceu resenhas em vários jornais de Minas, São Paulo, do Rio. Destaco algumas, por servirem ao propósito desta minha crônica e do vídeo que acabo de postar em meu canal no youtube. No Globo (Rio, 30.10.77), escrevia Luiz de Miranda: “É com uma filmadora em punho que Ronaldo revela os cenários onde não deixam de aparecer os personagens característicos de uma época aliados aos fatos culturais e históricos. Pomba Poema é um canto a sua terra. (...) o poeta Ronaldo Werneck, surge a todo o momento com a força grave de seu verso: “ali na poeira onde o rio tomba/onde a margem estreita/esmaga o rio torto”... “não mais o mar/ mas o rio mar/ telando ainda agora/ as margens da memória”.
No Suplemento Literário Minas Gerais (Belo Horizonte, 04.11.78), dizia o poeta-crítico Hugo Pontes: “(...) Como se estivesse filmando sua cidade, o autor faz tomadas verbais dignas de um grande cineasta com suas câmeras. Sua desenvoltura, sabendo fazer uso da palavra, faz-nos ver Cataguases com seu povo e suas ruas num mundo entre o útero e o átomo; mostra-nos o menino descalço dentro de um jato chupando jabuticaba e num carro de bois sonhando com a Lua (...)”.
No Rio, em 1999, o poeta-crítico Marcus Vinícius Quiroga escrevia no jornal literário Panorama: “O poeta, com sua oito e meio na mão (quanta saudade!) faz-se cicerone e nos guia por esta cidade-tempo, qual a Roma de Fellini, subjetivo muitas vezes em seus signos cataguasenses, mas mantendo sempre a densidade poética dos versos”. E Joaquim Branco, no poema-texto de orelha: “Riverrun um filme ou barco/ que se toma em qualquer ponto/ (...) – fotos, arte, voz, meandros/ resultam na paisagem inflada a cada/ take planejado: foto/cine/drama/ da cidade-mundo que o poeta/ ama”.

Revendo esses textos, escritos há várias décadas, percebo como havia neles qualquer coisa de premonitório. Isso porque a partir da década de 1980 comecei a filmar Cataguases e suas gentes (super-8 na mão, ou “oito e meio”, com brincou Marcus Vinícius, remetendo ao filme de Fellini), tendo como fio condutor o pomba poema.  Fragmentos desse filme inacabável – “Tempos de Mineração”, cerca de oito horas já editadas, com imagens captadas em várias bitolas: Super 8, VHS, Super VHS, Full HD – encontram-se no vídeo que acabo de editar – focado somente no poema –, disponibilizado no meu canal do youtube.
A seguir, e também como homenagem aos 40 anos de sua publicação, apresento alguns fragmentos do Pomba Poema, tomados ao acaso.



nesgas neblina
manhã ainda agora
                                               O CHEIRO DA MAÇÃ
                                                            EVOCANDO A METRÓPOLE
                         O MUNDO EXTERIOR EXTRAÍDO
                                                                                     A CADA ODOR & DENTADA

 O MUNDO ALÉM DA RETA DA SAUDADE
                                                                    ANTES DAS INDÚSTRIAS            O MUNDO
                                            ATOLADO
                                   NA PONTE DO SABIÁ
HÁ? NÃO HÁ?
                               NÃO SABÍAMOS
                                                                NÃO SABEMOS
                                                                            NÃO SOUBEMOS
                                                                                                     NUNCA JAMAIS
ESTAVA ALI O MUNDO
                                     ANTES DO TEMPO E DA PONTE
NUM REPENTE
                                NA GIRÂNDOLA DO TEMPO
                                                                                                      MANGA
                                                                    JABUTICABA
                                                 ABIU
                                                                    EXPLODINDO NO DENTE

o pombaquário
                                                                       arrebata
                                                                                   dados como petecas
                                                             lançados
                                 sugados ao rio
                        como patacas
                                               na memória
                                                                       correndo corroendo
                        um século em cada minuto
                        afogado em flores alvas
                                                                       netrodorea pubescens
                                                                       laranjeira da mata
                                                                                   limo
                                                                          limoeiro dos campos
                                                           dos palcos gerais
                                                 ktá apenas
                                                 cata
                                                 cena
                                                         seus atletas
                                                                    seus patetas
                                                                                seus poetas

                                                          que passo é esse apressado?
                               que luz é essa amarela?
                                 quando quem o quê como por quê?
de quem são esses olhos?
       quem por trás da janela?

traiçoeira
                     a esmo
trágica
                                  caminhada
                                                     sem tutu
                                      sem torresmo
                                                                        sem o velho cabedal
                                                   e sua poção mágica
a pé sem rapé
                    aguado
              maneiro
                                                     resta o café

                                                                        deslocado no tempo
                                                   outrora agora
fora do tempo do urânio
dos tratados
contratos de ricos
conchavos de risco
                                                                              movida a carro de boi
                                                   e gerânios
                                                                 girando
como pião matreiro
                     fora                     dentro                          fora
no exterior mineiro


cata ktá catanga
catuauás cartazes catuauases
itacatuauases cataguases

catarte
catarse

catavento
em close na memória

aqui ali
frag´alimentada
parte por parte
catanada água argila
desesperada
cataguases
arte por arte
ainda cintila

cataguarte.




15 de ago de 2017

Chico Cabral 1930-2014: faz falta o que poeta fez


Foto: Victor Giudice                                    Foto: Adriana Montheiro


Escrevo a língua do meu avô
sem sua permissão,
por isso apenas busco seduzir
os fantasmas que me visitam
por isso venho até o rio
para olhá-lo nos olhos
e numa canção inaudível
berçar os seres amáveis que o habitam.

Marquei meu campo ali lavado pelos rios
onde a curta vida se escoa  
                                            – transferindo
o ouro do meu viço ao vórtice das palavras,
– e a mina da poesia vai-se exaurindo.


Há exatos três anos, em 20 de agosto de 2014, morria no Rio meu grande amigo, o poeta cataguasense Francisco Marcelo Cabral. Faz falta o que o poeta fez, o que o homem Chico Cabral nos ensinou ao longo de sua existência. Sua fala, seu bom-humor, seus poemas vão ficar para sempre.
Publico a seguir o texto-homenagem que escrevi quando de seus 80 anos, lido em cerimônia realizada no Rio, na sede do Pen Clube do Brasil, em 5 de novembro de 2010.

CHICO CABRAL 80 ANOS
  
Senhoras e Senhores, boa noite. E um boa noite especial para meus amigos, os poetas Cláudio Murilo Leal, atual presidente do Pen Clube do Brasil, e Marcus Vinicius Quiroga, que me fizeram o convite – e portanto totalmente responsáveis pelo que sair daqui, dessa fala desajeitada, afetuosa e sem qualquer compromisso sobre o poeta Francisco Marcelo Cabral, aqui a meu lado, que completa 80 anos no próximo dia 18.
No Brasil, é tempo de grandes poetas oitentões, esses eternos meninos-poetas como ele e Ferreira Gullar, que já completou os seus em 10 de setembro. E ainda do grande Mário Faustino, que seria também octogenário a partir do último 22 de outubro. 
Mas é do poeta Francisco Marcelo que venho falar, do Chico, Chiquinho Cabral, meu grande amigo, padrinho (de meu primeiro casamento), compadre (padrinho de meu filho Pablo) e conterrâneo. Nascemos na mesma rua Dr. Sobral – os dois da mesma parteira, a Dona Alzira, avó do Chiquinho Cabral, o filho de Dona Jandira e do Seu Pedro Álvares Cabral. Sim, o Brasil foi mesmo descoberto em Cataguases: o Seu Pedro apenas disfarçava, fingindo ser dono da Padaria Cabral, mas eu-menino bem sabia de seu “achamento”: Padeiro artesão, meu pai, Pedro,/nas artes duras da vida/com as mãos que espantavam medos/cozia sossego e sono.//Sonhos, não.
No final dos anos 1940, com os lançamentos da revista Meia Pataca, editada em parceria com a poeta cataguasense Lina Tâmega Peixoto, sua grande amiga, e de O Centauro, seu primeiro livro de poemas, Chico Cabral já era, aos 19 anos, o melhor poeta da Rua Dr. Sobral, cuíca da cidade e de todas as Minas Gerais. Pelo menos entre aqueles que “não primavam por tirar ouro do nariz”. Na época, e no Rio, o escritor Rosário Fusco, em depoimento a José Conde, dizia ser seu preferido no Brasil um jovem poeta de Cataguases, um moço chamado Francisco Marcelo Cabral. E estamos conversados.
Anos depois, com toda a saudável inveja, eu me questionava: “E pensar que numa cidade pequena como Cataguases não consegui sequer ser o melhor poeta de minha rua!”. Isso porque a fábrica de pães de Seu Pedro fermentou e produziu Francisco Marcelo Cabral, um poeta sem igual. Ele que me perdoe, mas vale a rima. 

A magia do café com leite
É de Francisco Marcelo Cabral então que me lembrei enquanto tomava meu café da manhã num hotel carioca. E não por ser hoje cinco de novembro, o dia da Cultura, e ser ele o meu grande referencial nessa área. Mas sim pelos mistérios infindáveis do café com leite, dos 38 gostos do café com leite, grande descoberta de Cabral, que também redescobriu o Brasil, pelo menos para mim. Mas isso é outra história, ou a própria. Menos café, mais leite. Mais café, um tiquinho de leite. Meio a meio. Com açúcar, sem açúcar. Puro. Não havia adoçante na época, hoje então podemos acrescentar mais uns dez novos tipos de café com leite, esse multifário mistério que nos aquece e, como o sol, é novo a cada manhã.
Café com leite também é cultura, e o café com leite cultural é mais uma das surpreendentes tiradas surgidas da curiosidade diante do mundo e do permanente bom humor de Francisco Marcelo Cabral. Curiosidade e bom humor, sinônimos de inteligência. Uma inteligência fulgurante, um bem falar sobre tudo e qualquer coisa mais e mais ainda, que sempre me deixou (e acho que a todos que o conhecem) literalmente fascinado.
Logo que me mudei pro Rio, meados dos anos 60, eu o visitava sempre no apartamento da Rua Paissandu e era com o maior orgulho que apresentava o eruditíssimo poeta pras minhas namoradas e demais amigos. E penso agora como é paradoxal a gente não se ater muito nas obras dos amigos, principalmente dos mais chegados. Parece ser a amizade coisa maior, a encobrir a própria obra.
O afeto, o amor mesmo, parece nos preencher de tal forma que o texto, o poema do amigo, resta esquecido, em segundo plano. Comigo, foi assim com Rosário Fusco, que não li enquanto “o pratiquei”, como ele dizia, enquanto frequentava sua casa de Cataguases e me tornava cada vez mais seu amigo. Só fui descobrir o grande escritor que foi Rosário Fusco depois de sua morte.
Acontece o mesmo com Francisco Marcelo Cabral, e ainda bem que essa minha redescoberta “cabralina” ocorre com ele vivo – vivíssimo e pimpão às vésperas de seus “oitentão”.  “Chico Cabral chegou, o Chiquinho já está aí!” – me ligava sempre o Joaquim Branco, sempre mais ligado que eu. Para nós, jovens provincianos metidos a poetas, Francisco Marcelo Cabral, o Chiquinho Cabral, era “a voz” (e como falava!), referência, conexão com o Rio-metrópole, com o fascínio do mundo-exterior.

Sabia de tudo um muito
Era início dos anos 1960 e ele gostara de nossas primeiras experiências literárias, veiculadas no Muro, um jornalzinho mimeografado e metido a besta. Chico Cabral sabia de tudo um muito e mais um pouco. Perspicaz, sempre bem humorado, de transbordante inteligência, sua cultura, seus conhecimentos de largo espectro, nos deixavam literalmente boquiabertos. No Rio, onde morava, ele conhecia nossos ídolos de então, e a turma do SDJB, o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Conhecia de conhecer mesmo, de frequentar, de falar com eles, de ter (ou ter tido) amizade até mesmo com Mário Faustino, o poeta de quem mais gostávamos, morto pouco antes num desastre aéreo.
Cerro de los Cruces/ 97 mortos/ E a cauda intacta, como dizia o poema-homenagem a Faustino, o “aeromorto”, publicado na revista Invenção pelo poeta paulista Augusto de Campos, outra de nossas maiores referências. Augusto, o “augusto”. Conhecido de quem? Claro que do Chiquinho Cabral, que era também muito amigo de seu cunhado, o também poeta concreto Zé Lino Grunewald que mais tarde lançaria um livro chamado “Pedras-de-toque da Poesia Brasileira”, com vários poemas de Francisco Marcelo Cabral em destaque. O Zé Lino, para quem Chico Cabral levaria os originais de um livro de poemas escrito a quatro mãos pelo Joaquim Branco e por mim. Tempos depois, o Zé Lino nos enviou o livro de volta, com uma surpreendente e ferina anotação na página de abertura: “Plenamente publicável ao nível de mercado. Bem melhor que os lépidos e ledos ivos que graçam por aí”.
Chico Cabral era também amigo de Guimarães Rosa, com quem trabalhara no Itamaraty. O “Doutor Rosa”, que lhe dedicara alguns poemas e lera e anotara correções e elogios à margem dos novos poemas de Pedra de Sal, o livro de Cabral então inédito, a exemplo do que também fizera o não menos Mário Faustino. E como também Ezra Pound fez com o Waste Land de Eliot, correções depois transformadas em livro, numa bela edição da Faber & Faber, que ganhei nos anos 1970 do próprio Chico Cabral. Bons tempos, em que não havia o computador para “deletar” nossas correções, que permaneciam visíveis à espera de futuros e presumíveis exegetas.
Enfim, para os jovens basbaques do interior, o Chiquinho Cabral tornava real o mundo que conhecíamos mal e mal, e apenas de livros e jornais. Ele nos levava a metrópole, e a tornava um ser vivo, pulsante caleidoscópio cultural.  Sempre que adentrava a Ponte Velha de Cataguases, Cabral trazia dentro do charme de seu volks preto anos 1950, modelito alemão, sua mala carregada de cultura, informações fresquíssimas e uma alegria que nos contagiava e nos contagiou pela vida afora.

Que fazer? Cantar.
Seus poemas? Eu mesmo os conhecia muito pouco. Tinha lido assim-assim O Centauro, lançado em 1949, seu primeiro e único livro até aquela data. Lembro-me até hoje do fragmento de um dos poemas, que me despertou logo a atenção: É hora de sol/ lá fora/ e noite, no coração.// Milhares de estrelas,/borrões/ que as nuvens carregarão.// Mas a noite existe/ açoite/ que retalha o sonho, e então// o verso, que vinha/ terso/ se perde na negação. Mas o Cabral de todo O Centauro, o Cabral poeta, eu só iria ler com atenção mais tarde. Ler, reler e admirar profundamente, como merece o grande poeta que ele é. Que lucrei? Um verso./ Que fazer? cantar./ Mas se há dor? que importa!/A dor é só instrumento.
“A dor é só instrumento”, verso que Carlos Drummond de Andrade já destacara em carta para o poeta, de 19 de dezembro de 1949: “Creio que você tem coisas a nos dizer. Elas já estão anunciadas neste Centauro. Quando você usa expressões como “as dobras do não dizer”, quando, para descrever um homem sob a chuva, diz que ele vai “vestido de água corrente”. Sinto que aí tem coisa. Não jogue fora essa coisa, Francisco Marcelo Cabral. Cultive-as, apure-as, dê-nos boa poesia; estamos tão precisados!”.
O poeta do Centauro trazia e traz na verdade a sutileza de um Poeta-Pégaso: asa, ave, voo são suas maiores marcas, temas que se alçam – um ligeiro adejar de asa acesa – recorrentes em sua poética. Paisagem que do alto avista o Poeta-Pégaso, como num de seus versos-exemplares, aquele sagaz octossílabo, pleno de junções silábicas do poema Água Forte, do livro “Campo Marcado: o sol o chão cobre de ouro e ocre.
E a boa poesia pedida por Drummond espalhou-se vida afora, como nessa pequena montagem que me permiti fazer de alguns fragmentos de poemas dos vários livros de Francisco Marcelo Cabral e com a qual encerro esta minha fala.

Francisco M. Cabral:
        fragmentos/collage

Homem, cavalo, centauro
trindade do ser incerto
esta a minha natureza.

Possa a poesia evolar-se
homem, cavalo, centauro,
do meu pobre ser confuso

Outros lábios me repitam.
Meus versos fiz para dar.
Buscando incerto infinito,
Misto, centauro, aqui fico.

NADA, Cataguases, em teu rio pobre
Pomba sem vida, mudo e sujo
nada, nem a completa
destruição da paisagem da minha infância

NADA ME FAZ
lembrar um porto de diamantes

TE AMAR
Berço, seio, colo, braço, calor e umidade
é um ato simples
como nadar, anulando-se, na corrente limpa do rio

AMAR MENOS
é morrer
como o rio sendo freado pela areia
como tirar os óculos, desligar o telefone,
guardar a máquina de escrever e sair de casa
para nada

MENOS
que nada
é o pó do poema
que aqui sobrenada

NADA ME FAZ
TE AMAR MENOS
           
Temo jamais ter merecido
as asas dos meus versos.
Às vezes eu as desprendo – é noite, é Minas –
E como quem espreguiça
num largo espasmo
alço-as e me vou, ou sou levado
voando, me vou.

Meu mestre dança como os pássaros.
E canta com os claros tímpanos da aurora.

Meu mestre planta um par de asas no meu dorso
e prende meus pés no chão:
assim meu voo não se perde
E é puro deslumbramento
e gozo

Encher de vinho a tarde, como se faz com a vida.
Encher de tarde a vida, como se faz com o vinho.
Encher de vida o vinho, como se faz com a tarde.
Encher de vinho a vida, como se faz com a tarde.
Encher de vida a tarde, como se faz com o vinho.
Encher de tarde o vinho, como se faz com a vida.

O leitor se assenta
O poeta puxa a cadeira
a poesia é o tombo

Escrevemos
Porque sabemos
Que vamos morrer.

Escrevemos
porque não sabemos
por quê.

Para encerrar, leio na íntegra cinco poemas exemplares, highlights, pedras-de-toque de seus dois últimos livros, Cidade Interior e deste Campo Marcado, que o poeta está lançando aqui e agora.  Drummond estava certo: agora e aqui continua “tendo coisa”. E coisa muito boa, sempre que vinda do poeta Francisco Marcelo Cabral. De Cidade Interior, dois poemas lisboetas e um parisiense, plenos de bom humor. De Campo Marcado: “Este momento tem nome”, de fatura nitidamente drummondiana, e “Hora Nenhuma”, um dos punti luminosi do novo livro de Francisco Marcelo Cabral, que me lembrou, e muito, desde a estrofe inicial, aquele flash back de "misterioso mistério" do menino Guido no filme Fellini Otto e Mezzo. E o fecho do poema, que coisa mais perfeita, com aquela fantástica sacada do "par de asas sem ave", trouvaille do poeta mais alto.
 
LISBOA 1
Manhã cedo no Rocio
Madame em seda e boá
sussurra surpreendente convite
“C’est pas par l’argent, m’sieur, mais par vôtre compagnie…”
No Tejo, velas e mastros se eriçam ao jovem sol do outono.

LISBOA 2
Que é que nos falam
de modo tão familiar e carinhoso
mas na verdade
– estrangeiros aqui também –
não entendemos?

 PLACE DES VOSGES
Metido em lãs me esgueiro pelas arcadas
Pouco sol, uma névoa de outono.
Em frente à Maison de Victor Hugo
alguém grita  o meu nome
– em francês !
surpresa e  mistério
logo desfeito em riso

O turismo tem disso:
colega de colégio …
louca para ser vista ali.

HORA NENHUMA
Pelas frestas do soalho,
coam-se as crinas oblíquas do cavalo do vento.
Tremem as velas e as roupas finas
ao sopro dessa luz sem sombra
que tanto medo me dá.
A mãe sussurra não olhes o piso nem as telhas.
Nas paredes nuas o sono os aguarda
entre as manchas de mofo e seus desenhos
de limo verde.

Aqui mora a noite
e seu bafo de roupa guardada,
suas lãs descoradas e ásperas.
como peles selvagens mal curtidas.

Essas coisas velhas recendem a calor suado.

Debaixo da cama arfa um cachorro cego
e um jarro de miosótis tinge com sua morte azul 
          a penumbra e o silêncio.
O medo não abre os olhos do menino
que apenas pressente o abismo do universo 
e embarca no seu bote de flanela.

O sono se abate sobre o peito
como um par de asas sem ave.
uma rajada de brisa adocicada e morna,
uma persiana que desce nos fios.

A mãe já não diz mais nada que se ouça.
apenas nela vibra a delicada respiração do menino
– fonte e sinal da vida que prossegue.


ESTE MOMENTO TEM NOME
Este momento tem nome: êxtase.
A luz dura do sol no teu olho cerrado
o zumbido de insetos delicados,
o ácido sal da vida,
o pulso e o ritmo ofegante do ar que te penetra

Submerges nesta fresta do tempo
e sentes o universo tocando o teu ser,
tão íntimo que o podes separar em fruto e semente
tão sem limites em suas onze membranas
que nele tudo cabe inumeravelmente,
tão diversamente o mesmo que não te contém e contém.
      
Não estás morrendo, sossega.
Apenas navegas em estilhaços
como a estrela que explode na constelação do Centauro.